Escritora boicota festival após Wenders dizer que cinema deve evitar política
Presidente do júri do Festival de Berlim respondeu a questionamento sobre Gaza; diretor afirmou que filmes devem mudar pessoas, não governos
Uma pergunta sobre o conflito em Gaza interrompeu o clima ameno da coletiva de imprensa do júri do Festival de Berlim nesta quinta-feira, 12. Após 15 minutos de conversa sobre o poder transformador do cinema, um jornalista questionou como o júri lidava com o fato de seu principal patrocinador, o governo alemão, apoiar ações consideradas genocidas na Faixa de Gaza.
A diretora do evento, Tricia Tuttle, tentou desviar do assunto. “Acho que queremos também falar de filmes”, respondeu. O repórter, que não se identificou, insistiu na questão: “Filmes são políticos, você acabou de dizer”.
Defesa da arte apolítica
A produtora polonesa Ewa Puszczynska, responsável por filmes como Ida e Zona de Interesse, tomou a palavra. “Os filmes não são políticos no sentido literal”, afirmou.
Wim Wenders, diretor de 80 anos conhecido por obras como O Amigo Americano, Paris, Texas e Asas do Desejo, reforçou a posição. “Não podemos realmente interferir na política, temos que nos manter fora dela”, declarou o presidente do júri.
Para ele, fazer filmes dedicados à política significaria entrar no campo dos governos. “Nós somos o contrapeso da política. Somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos”.
Minutos antes, o cineasta alemão havia defendido que “filmes podem mudar o mundo”. A ressalva, porém, era clara: a transformação se daria nas pessoas, não nos políticos. “Podemos mudar a ideia que as pessoas têm de como deveriam viver”, explicou. “E existe uma grande discrepância neste planeta entre as pessoas, que querem viver suas vidas, e governos, que têm outras ideias”.
Escritora boicota Festival de Berlim
A escritora indiana Arundhati Roy anunciou que não participará da edição deste ano do Festival de Berlim, depois que o presidente do júri, o cineasta alemão Wim Wenders, declarou em entrevista coletiva que artistas devem manter distância da política.
“Somos o contrapeso da política, o oposto dela. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não dos políticos”, afirmou Wenders ao ser questionado sobre o conflito no Oriente Médio. A fala gerou reação imediata da autora, que classificou as declarações como inaceitáveis.
Roy estava programada para apresentar o filme In Which Annie Gives It Those Ones na mostra Classics. A obra, descrita pela escritora como um projeto de juventude, não será mais exibida com sua presença.
“Se os maiores cineastas e artistas do nosso tempo não podem se levantar e dizer isso, a história os julgará”, publicou a escritora.
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