Opositor venezuelano volta à prisão domiciliar 12 horas após soltura
Juan Pablo Guanipa havia sido libertado no domingo depois de nove meses detido; Ministério Público alega violação de medidas cautelares
O dirigente oposicionista Juan Pablo Guanipa foi transferido nesta terça-feira, 10, para prisão domiciliar em Maracaibo, na Venezuela. A informação foi confirmada por seu filho, Ramón Guanipa, nas redes sociais. O líder político havia sido solto no domingo, 8, após nove meses de detenção, mas foi preso novamente menos de 12 horas depois.
“Está em minha casa em Maracaibo”, escreveu Ramón na conta do pai na plataforma X. “Meu pai continua injustamente preso, porque prisão domiciliar ainda é prisão, e exigimos sua liberdade plena e a de todos os presos políticos”, acrescentou.
Até a noite de segunda-feira, 9, a família desconhecia o paradeiro de Guanipa. Ele havia sido retirado de casa por homens fortemente armados e vestidos à paisana, segundo relatos de familiares.
Atividades durante período em liberdade
No intervalo entre as duas detenções, Guanipa percorreu Caracas em uma caravana motorizada, visitou parentes de presos políticos e pediu novas eleições. Também publicou uma mensagem nas redes sociais com a frase “I’m back”, acompanhada de uma imagem que o retratava como personagem do filme O Exterminador do Futuro (1984).
O oposicionista agradeceu ao governo dos Estados Unidos “por seu trabalho a favor da liberdade da Venezuela e de todos os presos políticos”. Em entrevista à agência AFP, declarou: “Acho que isso precisa terminar com o respeito à vontade do povo venezuelano”.
Guanipa é um dos principais aliados de María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz. Ele estava detido sob acusação de conspiração desde janeiro de 2025, quando acompanhou Machado em um protesto contra a posse do ditador Nicolás Maduro, “reeleito” em eleições contestadas pela oposição.
O Ministério Público venezuelano afirmou que Guanipa descumpriu as medidas cautelares ao fazer declarações públicas. “Saiu dando declarações e ameaçando”, disse o procurador-geral Tarek William Saab à AFP. “Violou essas medidas cautelares, que o proibiam de fazer declarações”.
A família contesta a versão oficial. Ramón Guanipa afirmou em entrevista coletiva na segunda-feira que o alvará de soltura estabelecia apenas apresentação periódica à Justiça e proibição de deixar o país. “Falar, declarar e se expressar não é crime”, disse. “Qual é o medo de ter uma liderança nas ruas?”.
María Corina Machado classificou a nova detenção como “sequestro”. A ONG Foro Penal registrou 426 libertações desde 8 de janeiro, quando a presidente interina Delcy Rodríguez anunciou o início desse processo.
Contexto político conturbado
A chavista Delcy Rodríguez governa sob tutela dos Estados Unidos, que capturaram Maduro em uma investida militar no 3 de janeiro.
A libertação de Guanipa ocorreu dois dias antes da aprovação prevista no Parlamento de uma anistia geral impulsionada pela presidente interina.
O consultor de risco político Juan Manuel Trak avaliou que o episódio “evidencia a tensão entre a necessidade de abertura para atender às demandas externas e aliviar, de alguma forma, as pressões internas, e a capacidade de um sistema em processo de adaptação de tolerar uma oposição organizada”.
“A mensagem é que o espaço político, tal como vinha sendo promovido por Guanipa nas poucas horas em que esteve livre, ainda não está pronto”, disse Trak à AFP.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)