O reino de Bolsonaro por um cavalo
"Ele não tem amigos, a não ser aqueles que são amigos por medo", diz um dos desafiantes de Ricardo III na peça de Shakespeare
“Ele não tem amigos, a não ser aqueles que são amigos por medo, que, em sua maior necessidade, fugirão dele”, diz um dos aliados do futuro rei Henrique VII antes da batalha em que o maligno Ricardo III seria derrotado, na peça de Shakespeare que leva o nome deste último.
Na versão do bardo inglês, Ricardo III chega ao trono admitindo sua vilania, descartando aliados e se livrando de quem está em seu caminho, inclusive o irmão e os sobrinhos. O monarca abraça a própria deformidade — inclusive física — para chegar ao poder, mas acaba sozinho.
Após a prisão de Jair Bolsonaro, os filhos do ex-presidente penam para manter os aliados submetidos aos planos da família. Eduardo e Carlos Bolsonaro, em especial, passam recados públicos para aqueles que ousam não subscrever suas decisões e estratégias.
Servem de exemplo todos os aliados da família que ficaram pelo caminho, como Joice Hasselmann, Wilson Witzel, Gustavo Bebianno, João Doria, Santos Cruz e Luciano Bivar, entre outros.
Monarquia?
O recado mais recente foi passado pelo deputado cassado, por meio de uma declaração do deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) que soa como a homenagem do súdito de uma família real: “Não existe direita no Brasil, só existe Jair Messias Bolsonaro”.
Segundo Pollon, “é responsabilidade de todos aqueles que são leais ao presidente Bolsonaro hoje parar o que está fazendo e ir lá fortalecer o Carlos Bolsonaro”.
O deputado se refere à pretensão aleatória e injustificada do ex-vereador carioca de se eleger senador por Santa Catarina, que tumultuou os acordos do PL no estado.
Eduardo aplaudiu esse “apoio sem condicionantes” e o usou como exemplo, destacando que “o resto quem faz o julgamento é o povo” — Pollon é pré-candidato ao governo do Mato Grosso do Sul.
Traidores?
Os principais alvos da família na tentativa de manter o comando total da direita no Brasil são os aliados que parecem ter vida própria para além do bolsonarismo.
Entre eles estão a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Esses foram e são criticados por não aderirem totalmente à pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e não se engajarem nos planos dos filhos de Bolsonaro com o empenho que de eles gostariam — por mais que esses planos tenham se mostrado equivocados.
A deputada estadual de Santa Catarina Ana Campagnollo (PL-SC) foi um pouco mais longe e alertou sobre a confusão que seria causada pela candidatura de Carlos ao Senado em seu estado, além de dizer que Bolsonaro acabou preso por “estratégias ruins”.
Na cena mais conhecida da Tragédia do rei Ricardo III, o protagonista perde seu cavalo no campo de batalha e profere em vão a célebre frase “meu reino por um cavalo”, logo antes de sucumbir.
Quem prestar atenção direito ouvirá os filhos de Bolsonaro gritando o mesmo.
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