Josias Teófilo na Crusoé: Acabou a paciência
A reação tardia da sociedade revela exaustão diante da vulgarização da cultura
Em dezembro passado uma formatura terminou em briga generalizada em Olinda. Na ocasião, pais de alunos do colégio Madre de Deus reclamaram da letra de uma música tocada na cerimônia, de autoria de DJ Guuga (foto) e MC Pierre.
O funk descreve o cenário de dois homens e uma mulher voando em um helicóptero, com versos como “Ou dá essa xereca ou eu te jogo aqui em cima” e “Se ficar de palhaçada, eu taco no oceano, não tô brincando”. Depois da reclamação houve um empurra-empurra e confusão generalizada.
O que me chama atenção não é o escândalo causado por músicas pornofônicas num evento para alunos e familiares, mas como durante tanto tempo ninguém nunca se escandalizou com esse tipo de coisa.
Um dia desses uma amiga médica do Recife me contou indignada como numa formatura de medicina esse tipo de coisa acontecia sem aparentemente ninguém indignar-se.
Completa putaria
Eu mesmo, morando em Pernambuco, vi coisas semelhantes acontecerem em formaturas: à medida que vai ficando mais tarde as músicas vão ficando mais pesadas, até virar completa putaria.
Há poucos dias a cantora Ludmilla lançou um clipe chamado Bota. O clipe mostra ela e outras moças negras e mulatas com shorts verde e amarelos entrando de moto na favela e sensualizando. Os comentários ao clipe na postagem oficial na página da cantora foram bastante negativos: “Que país amaldiçoado” e “estética asquerosa”, etc.
Mês passado o pesquisador Thiago B. A. de Souza, conhecido como Thiagson, que é doutor em musicologia pela USP, publicou no X um vídeo para divulgar o livro baseado na sua tese de doutorado. O vídeo começa com ele de cueca colocando um plug anal na boca, e dizendo em seguida: “Lubrificou, botou, pegou, puxou e tome!”, simulando um ato sexual.
Só críticas
Vi até onde pude dos comentários à postagem e não achei um só comentário positivo, só críticas bastante contundentes e irritadas.
Não é questão de moralismo. A sexualidade é um tema importante em qualquer linguagem artística. Nunca vi problema nas cenas de sexo de filmes de Almodóvar ou Walter Hugo Khouri, ou na literatura de Henry Miller, ou nas descrições sexuais de Gilberto Freyre — tanto de suas experiências pessoais quanto nos relatos históricos dos seus livros sociológicos, um dos motivos de seus livros terem vendido tanto quando foram lançados.
O que incomodou a todos nos três exemplos citados é uma mistura entre sexualização vulgar, apologia da criminalidade e o clichê de estética da favela. Tal mistura não é exclusiva do Brasil…
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