Condomínios: o novo território da violência banal
Pequenos conflitos — vaga de garagem, vazamento de água, cobrança administrativa — passaram a funcionar como gatilhos de violência extrema
Mataram um síndico em Osasco. Executaram um subsíndico no interior do Rio de Janeiro. Em Jundiaí, um síndico foi assassinado por um policial militar que já havia ocupado o mesmo cargo. Em Goiás, o síndico matou uma moradora.
Não é coincidência. É sintoma de colapso.
O condomínio brasileiro deixou de ser espaço de convivência e virou um microterritório de tensão permanente. Pequenos conflitos — vaga de garagem, vazamento de água, cobrança administrativa — passaram a funcionar como gatilhos de violência extrema. A regra virou afronta. A gestão virou provocação. O limite virou motivo de ódio.
Em Osasco, uma vaga “emprestada” terminou em morte. O síndico pediu de volta o que era do condomínio. O morador respondeu com uma arma. Autoridade administrativa contra autoridade armada. Venceu quem puxou o gatilho.
No Rio de Janeiro, o subsíndico foi morto após cobrar um problema hidráulico. O agressor tinha histórico criminal extenso. O condomínio convivia com o risco. O sistema fingia que não via.
Em Jundiaí, o caso foi ainda mais revelador: um ex-síndico, policial militar, matou o gestor atual após desavenças prolongadas. Não foi impulso. Foi acúmulo. Foi ressentimento fermentado em assembleias, corredores e garagens. Depois, o agressor se matou. O condomínio ficou.
E Goiás fechou o ciclo do absurdo: o síndico, figura criada para organizar a convivência, virou o agente da morte.
O mercado insiste em tratar esses episódios como “casos isolados”. Não são. São apenas os que atravessaram o filtro da morte e chegaram à imprensa. Abaixo da superfície, existe um oceano invisível de violência cotidiana: ameaças, perseguições, agressões, intimidações, síndicos que renunciam por medo, funcionários coagidos, assembleias que viram ringues. Nada disso vira índice nacional. Nada disso entra no debate público.
Hoje, o síndico é vilão. Ontem, o morador era o alvo. Amanhã, os papéis se invertem de novo. Porque o problema não é o cargo. É algo mais profundo e mais incômodo: a incapacidade crescente de parte da sociedade de viver sob regra, frustração e decisão coletiva.
Condomínio exige habilidades que nem todos têm. Saber ouvir “não”. Aceitar perda. Respeitar norma. Conviver com o outro. Quando isso falha, sobra agressividade. Quando não há consequência, sobra violência.
A solução não virá de discursos sobre empatia nem de cartilhas decorativas. Precisa ser dura, impopular e eficaz: educação obrigatória para convivência, tecnologia para tirar o conflito do campo pessoal e afastamento rápido de quem demonstra, de forma reiterada, incapacidade de viver em coletivo. Inclusive com avaliações psicológicas quando houver sinais claros de risco.
Isso não é radicalismo. É sobrevivência institucional.
O condomínio virou um laboratório do que o Brasil se tornou: intolerante, armado, incapaz de lidar com limites. A diferença é que, ali, a violência não está distante. Ela mora no andar de cima.
A pergunta não é se novos casos virão. É por que ainda fingimos surpresa quando eles acontecem.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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