“Acho que todos estão em perigo”, diz escritor Salman Rushdie
Autor relaciona atentado sofrido em 2022 a discursos de líderes políticos e ao aumento da hostilidade contra a produção cultural nos EUA
O escritor Salman Rushdie afirmou no Festival de Cinema de Sundance, onde foi exibido o documentário Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie, que a intolerância política gera um ambiente de insegurança para a população civil, e que o atentado sofrido por ele 2022 é parte de um fenômeno de hostilidade mais abrangente.
O filme foi baseado em sua obra, Knife, dirigido por Alex Gibney, e detalha a tentativa de homicídio ocorrida em 2022, no estado de Nova York. Na ocasião, Rushdie recebeu quinze golpes de faca antes de iniciar uma palestra em Chautauqua. A produção utiliza registros do momento da agressão e arquivos do período de recuperação hospitalar.
As sequelas do episódio incluem a perda definitiva da visão do olho direito do romancista. O documentário também aborda a repercussão de sua obra literária Os Versos Satânicos, publicada em 1988. O livro motivou a decretação de uma sentença de morte por líderes religiosos iranianos na década de 1980.
Para Rushdie, não há coincidências
Rushdie disse que “a ideia do perigo e da violência está perto de todos agora neste país. Acho que todos estão em perigo agora”.
O autor definiu a natureza dessas agressões como um instrumento contra o conhecimento e as artes: “A violência é isso, violência desencadeada pelos sem escrúpulos que usam os ignorantes para atacar… a cultura”. Para o escritor, a produção intelectual é vista como adversária por sistemas autoritários.
Rushdie afirmou que essa oposição se manifesta em ações contra o jornalismo, as universidades e a literatura: “Para o autoritário, a cultura é o inimigo. Seja o jornalismo, as universidades, a música ou a escrita… os incultos, os ignorantes e os radicais não a toleram e agem contra ela, como vemos todos os dias”.
O documentário sobre a vida de Rushdie não foi concebido como uma resposta imediata aos fatos políticos de 2026. No entanto, ele considera que o lançamento da obra coincide com a percepção coletiva de risco: “Começo a pensar que talvez o filme chegue em um momento oportuno, que talvez todos sintamos agora o risco da violência”, afirmou.
O responsável pelo crime de 2022 cumpre pena de vinte e cinco anos de prisão após condenação judicial. Em depoimentos anteriores ao julgamento, o agressor alegou que as publicações de Rushdie representavam uma ofensa às suas crenças – e admitiu ter lido apenas duas páginas do livro que motivou o ataque.
Quem é Salman Rushdie?
Salman Rushdie viveu um período de dez anos sob proteção governamental britânico, após ser condenado a morte – fatwa – em 1989 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, líder supremo do Irã, que considerou Os Versos Satânicos como um livro blasfemo contra o Islã.
A sentença forçou Rushdie a viver escondido por anos e resultou em ataques a tradutores e editores da obra, culminando no esfaqueamento e cegueira parcial do autor em 2022.
A história é contada em detalhes na autobiografia Joseph Anton, publicada no Brasil em 2012.
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