Nikolas rompe as amarras do bolsonarismo
Deputado federal demonstrou que consegue andar com as próprias pernas ao arregimentar multidão durante caminhada de Minas a Brasília
Quando estava solto, Jair Bolsonaro já tinha muita dificuldade de controlar — submeter talvez seja um verbo melhor — seus aliados. O resultado disso é que muitos foram ficando pelo caminho, classificados como traidores.
A razão essencial dessa situação é que o ex-presidente não se tornou um líder exatamente pelas suas virtudes, mas pela disposição para se rebaixar ao nível dos petistas, que rastejam em busca de votos há décadas e enfim encontraram alguém à altura.
Agora, são os filhos de Bolsonaro que enfrentam o desafio de manter os aliados submetidos, e num cenário ainda mais adverso, pois não têm o mesmo carisma popular do pai.
Submissão
Primeiro foi a deputada estadual Ana Campagnollo (PL-SC), que ousou questionar a escolha do ex-vereador Carlos Bolsonaro de se candidatar ao Senado por Santa Catarina.
Depois, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi enquadrada com a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por tentar intervir nas alianças no Ceará.
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O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é outro incômodo para a família Bolsonaro, porque é visto como uma candidato presidencial mais viável do que Flávio.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) incomoda pelo mesmo motivo: parece ter vida para além da família Bolsonaro. E ele demonstrou isso de forma eloquente na caminhada até Brasília.
Com as próprias pernas
Ao contrário do que aconteceu com Campagnollo, Michelle e Tarcísio, os Bolsonaros não conseguiram controlar Nikolas. O deputado iniciou sozinho sua caminhada, que contou com a participação de Carlos e com o apoio tímido de Flávio e Eduardo.
O senador ligou para o deputado durante a caminhada, mas, ao convocar para o desfecho do ato, no domingo, diluiu o protagonismo de Nikolas ao marcar dezenas de parlamentares no post com o vídeo de convocação, inclusive os que não têm perfil na rede social X.
Assim como Flávio, Eduardo não menciona o nome de Nikolas em seu vídeo de convocação para “os atos de hoje, domingo, no Brasil”. O deputado cassado, aliás, é quem mais demonstrou desconfiança em relação ao deputado mineiro nos últimos meses.
Eduardo chegou a dizer que “é triste ver a que ponto o Nikolas chegou” durante entrevero público por causa do tarifaço de Donald Trump, e compartilhou mensagem que acusava do deputado de querer se livrar de Bolsonaro.
“A base vem forte”
O comportamento dos filhos de Bolsonaro contrasta com o de Michelle, que gravou um vídeo chamando Nikolas de “nosso líder” e publicou uma agradecimento público ao deputado, no qual o classificou como um “gigante”, disse que “a base vem forte” e comentou, bem humorada: “Lembra que o Jair te adotou em Minas Gerais?“.
Tarcísio também deu os créditos da mobilização a Nikolas ao postar sobre a caminhada: “O Brasil acordou! Nikolas mostrou que o gigante precisa se levantar e, com coragem e propósito, mostrou que podemos ser capazes de coisas incríveis e construir um futuro melhor. O povo se levantou!”.
Nem o governador nem a ex-primeira-dama postaram sobre a visita de Flávio e Eduardo a Israel. Aliás, a ofensiva internacional dos filhos de Bolsonaro foi totalmente obscurecida pela caminhada protagonizada por Nikolas.
Próximo capítulo
A vereadora de São Paulo Janaina Paschoal (PP) decretou que “já iniciamos o próximo capítulo” e disse que “a direita ainda vai compreender que não tem nada a ver com Bolsonaro”.
Falta apenas combinar com a família Bolsonaro.
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