Josias Teófilo na Crusoé: A tragédia de um violinista de periferia
Fala-se muito da ascensão social, mas não da ascensão cultural: como um indivíduo pode sair de um ambiente cultural e se inserir em outro, superior
Um violinista da periferia venceu a miséria pelo talento, mas foi vencido pelo abismo cultural que nunca conseguiu deixar para trás.
Na década de 2000, o maestro Rafael Garcia e sua esposa, a pianista Ana Lucia Altino, criaram a Orquestra Jovem de Pernambuco, uma orquestra de câmara formada por estudantes que se apresentavam pelo estado de Pernambuco.
Eu, que tornei-me amigo do maestro, acompanhei eles em vários concertos, até em Triunfo, a 450 quilômetros do Recife, uma cidade amena e fria no meio do sertão.
Lá eu, o maestro e os músicos ficamos hospedados num hotel bem simpático.
No café da manhã, tinham umas comidinhas bem gostosas, e em grande variedade — mas os músicos, vindos de projetos sociais (e moradores de comunidades carentes), só comiam cuzcuz com salsicha.
Tomei um café tão bom, até perguntei qual a marca do café, e os donos disseram que eles mesmos o produziam. Mas os meninos da orquestra só estavam interessados em cuzcuz com salsicha.
Um dos violinistas se destacou, e tornou-se o spalla da orquestra. Era um rapaz bem dedicado e tinha um grau de seriedade a mais que os outros. Passou a tocar na orquestra profissional do Festival Virtuosi, e era convidado para apresentar-se em outros eventos.
Tinha tudo para ter uma carreira na música. Não foi o que aconteceu. Em 2024, ele foi encontrado morto em casa. Parece que tinha depressão, dependência de álcool e drogas.
O caso do violinista é uma exceção mas é bastante ilustrativo de um tema, o dos indivíduos que não conseguem ascender culturalmente.
Fala-se muito da ascensão social, mas não da ascensão cultural: como um indivíduo pode sair de um ambiente cultural e se inserir em outro, superior.
Na realidade, há quem…
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