Letícia Barros na Crusoé: O preço pago pelas mulheres na teocracia socialista do Irã
Vestimenta obrigatória, restrições de mobilidade e punições exemplares não servem apenas para impor “moralidade”, mas para sinalizar que o corpo feminino pertence ao Estado
O que está acontecendo no Irã hoje não são excessos isolados ou inesperados.
Trata-se da atuação normal de um regime construído para controlar corpos, mentes e vidas.
Protestos são reprimidos, dissidências são criminalizadas e mulheres seguem sendo mortas e punidas por desafiar normas impostas pelo Estado sobre como devem se vestir, viver e existir em público.
Não é apenas uma crise política – é um sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.
Ouso dizer que o Irã não é apenas uma teocracia, mas uma teocracia socialista.
Líderes religiosos exercem autoridade política e a sharia, a lei islâmica, serve como base do seu sistema legal desde a Revolução Islâmica de 1979.
O Irã opera sob uma lógica claramente estatizante e centralizadora, com forte presença do Estado nos principais setores produtivos, amplo controle sobre comércio, subsídios massivos e regulação pesada.
Um sistema de fundações e empresas ligadas diretamente ao regime concentram riqueza e poder econômico.
Petróleo, energia, bancos e grandes indústrias são fortemente controlados ou influenciados pelo Estado e por entidades paraestatais associadas ao clero e à Guarda Revolucionária, o que reduz drasticamente a concorrência, o empreendedorismo e a autonomia do setor privado.
Não se trata de um mercado livre distorcido por políticas públicas pontuais, mas de um arranjo econômico em que o Estado atua como planejador, distribuidor e beneficiário central da atividade econômica, característica típica de economias organizadas sob princípios socialistas, ainda que envoltas em retórica religiosa e nacionalista.
A religião fornece a agenda social, enquanto o Estado fornece o aparato coercitivo e econômico.
Nesse modelo, o controle das mulheres é um de seus principais mecanismos de disciplina social.
Vestimenta obrigatória, restrições de mobilidade e punições exemplares não servem apenas para impor “moralidade”, mas para sinalizar que o corpo feminino pertence ao Estado.
Quando um governo consegue controlar as mulheres, ele controla famílias, costumes e a próxima geração. Trata-se de engenharia social em sua forma mais íntima e violenta.
É aqui que o paralelo com a ficção The Handmaid’s Tale se torna inevitável.
Tanto o Irã quanto Gilead – o Estado autoritário e teocrático do livro – operam a partir de um poder que se legitima por meio da religião, converte códigos ideológicos em leis e reduz mulheres a papéis sociais definidos pelo Estado.
A obra não é um…
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