Crusoé: A estética da captura e a ilusão da ruptura na Venezuela
Transições mal conduzidas frequentemente resultam em vácuos institucionais, disputas internas e prolongamento do sofrimento da população
Por Magno Karl
A imagem de Nicolás Maduro capturado por uma operação americana correu o mundo como um símbolo de ruptura de um regime atroz.
Para parte da opinião pública internacional, a cena parecia anunciar o fim de um dos governos mais longevos e repressivos da América Latina. O impacto visual foi imediato. O efeito político, no entanto, foi mais limitado do que a estética da operação sugeria.
Passado o choque inicial, o fato central permanece: o regime chavista não caiu.
A estrutura de poder segue intacta, a repressão política continua ativa e presos políticos seguem encarcerados.
O comando do Estado foi reorganizado internamente, com a ascensão de uma vice-presidente eleita em um processo amplamente questionado, sem que tenha havido qualquer transição democrática efetiva. A captura produziu imagens, mas não ruptura.
Essa dissociação entre símbolo e realidade revela um problema recorrente na análise de intervenções externas: a crença de que a remoção de um líder autoritário equivale, automaticamente, ao colapso do regime que ele encarna.
No caso venezuelano, essa leitura esbarra em mais de duas décadas de erosão institucional, captura do Estado e destruição sistemática de freios e contrapesos. O chavismo não é um governo ou um ditador, é uma engrenagem de poder profundamente enraizada.
A crise venezuelana é, antes de tudo, um colapso fabricado internamente.
Não foi causada por guerras, catástrofes naturais ou invasões estrangeiras, mas por escolhas políticas: autoritarismo, estatizações predatórias, corrupção sistêmica e destruição dos mecanismos de mercado.
O resultado foi uma derrocada econômica sem precedentes e uma crise humanitária expressa no êxodo de milhões de venezuelanos.
Nesse contexto, a operação americana tampouco pode ser interpretada como um projeto de redemocratização.
O discurso de Washington deixa claro que não há, ao menos no curto prazo, uma estratégia de reconstrução institucional ou de “nation building”.
A ação se insere em uma…
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