Grande Muralha Verde da China “salva” florestas, mas está secando o país errado
A expansão de florestas e pastagens em áreas degradadas da China transformou regiões áridas e semiáridas, reduzindo a desertificação
A expansão de florestas e pastagens em áreas degradadas da China transformou regiões áridas e semiáridas, reduzindo a desertificação, alterando o clima local e modificando a disponibilidade de água em grandes porções do país.
O que é a Grande Muralha Verde da China
A Grande Muralha Verde da China é um projeto de cinturões florestais no norte do país, criado no fim dos anos 1970 para conter o avanço dos desertos sobre áreas agrícolas e cidades.
Em regiões antes dominadas por dunas instáveis, o plantio de árvores e arbustos adaptados à seca ajudou a reduzir tempestades de areia e perda de solo fértil.
Com a ampliação das áreas reflorestadas, a cobertura florestal se aproximou de um quarto do território chinês.
Em alguns trechos, as faixas de vegetação contornam grandes desertos, compondo um mosaico de florestas, plantações e pastagens recuperadas, articulado a outras políticas de reflorestamento e proteção de matas nativas.
🇨🇳🌱 A China está apagando os desertos do seu mapa.
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) November 9, 2025
O governo está investindo pesado em processos de reversão da desertificação.
Até o momento, cerca de 43.300 km² de deserto foram reflorestados, uma área equivalente ao território da Dinamarca.pic.twitter.com/26BHhO0IUM
Como o reflorestamento altera o ciclo hidrológico
O “reverdecimento” chinês está diretamente ligado à evapotranspiração, soma da evaporação da água de superfícies e solos com a transpiração das plantas.
Quando florestas e pastagens se expandem, mais água é transferida do solo para a atmosfera, modificando o balanço entre entrada e saída de água em bacias hidrográficas.
Entre o início dos anos 2000 e 2020, pesquisas apontam aumento expressivo da evapotranspiração em grandes áreas da China.
Em algumas regiões, o acréscimo de vapor d’água elevou a chuva local; em outras, a precipitação não acompanhou o ritmo, reduzindo a água disponível em rios, reservatórios e aquíferos, enquanto massas de ar redistribuem essa umidade a longas distâncias.
Quais são os principais programas de restauração ecológica
Além da Grande Muralha Verde, a China implantou programas de restauração de ecossistemas que estimulam a conversão de lavouras em florestas ou pastagens e restringem o corte de florestas primárias.
Essas iniciativas ampliam a área coberta por vegetação, contêm a erosão, reduzem deslizamentos e aumentam a captura de carbono.
Essas ações se organizam em frentes complementares voltadas à recuperação de áreas degradadas e ao manejo de recursos naturais em escala nacional:
- Reflorestamento em zonas áridas e semiáridas, incluindo a Grande Muralha Verde.
- Conversão de terras agrícolas em florestas e pastagens, com incentivos financeiros a agricultores.
- Proteção de florestas nativas, com restrições ao corte e à exploração intensiva.

Como o reverdecimento afeta a disponibilidade de água
O impacto da Grande Muralha Verde da China e de outros programas de revegetação varia entre as regiões.
No leste, sob influência das monções, a expansão florestal aumentou mais a evapotranspiração do que a chuva, diminuindo a água superficial e subterrânea; situação semelhante ocorre em partes do noroeste árido.
Já o planalto tibetano registrou ganho de água, possivelmente ligado ao transporte de umidade e a mudanças na circulação atmosférica.
Isso mostra que intervenções locais em cobertura vegetal podem alterar a disponibilidade hídrica a longa distância, afetando agricultura, indústria e abastecimento urbano.
Que cuidados são necessários para conciliar reflorestamento e água
A experiência chinesa indica que programas de reflorestamento em grande escala devem ser planejados junto à gestão de recursos hídricos.
Ao definir novas áreas de plantio ou de recuperação de pastagens, é essencial considerar características ecológicas, climáticas e de uso da terra.
Especialistas destacam a avaliação do tipo de vegetação, do clima regional, do uso atual da terra e da gestão de bacias, apoiando-se em modelagem climática, sensoriamento remoto e dados de campo para monitorar, quase em tempo real, como o “reverdecimento” modifica rios, lagos e aquíferos em diferentes regiões da China.
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