Quem criou a identidade visual do calçamento de São Paulo?
Padrão gráfico que se tornou símbolo da capital obteve registro anos após implementação; identidade de sua criadora era desconhecida do público
O desenho estilizado do mapa do estado de São Paulo, presente nas calçadas da capital paulista desde a década de 1960, teve sua autoria omitida por décadas. Mirthes Bernardes, servidora pública municipal, venceu o concurso para a escolha do padrão gráfico em 1966. Um artigo científico da Universidade de São Paulo (USP) examina registros que comprovam a falta de atribuição nominal à artista durante a implementação do projeto.
A investigação se baseou em documentos oficiais e depoimentos de familiares de Mirthes, que morreu em 2020. Na época da seleção, a prefeitura buscava estabelecer uma marca urbana equivalente ao calçamento de Copacabana. Embora tenha vencido a disputa, o nome da desenhista não apareceu em notícias da imprensa ou em comunicados internos do governo.
Concurso e implementação do modelo gráfico
O projeto de Mirthes disputou a preferência com sugestões que remetiam a grãos de café e indicadores de direção. A decisão coube a um júri popular e a profissionais da comunicação convidados pela administração municipal. O professor Leandro Velloso explica que “a proposta de Mirthes era clara, funcional e simbolicamente forte. Considerando os concorrentes, ela apresentou o trabalho mais coerente e mereceu vencer”.
A Rua da Consolação foi o primeiro local a receber a pavimentação, originalmente composta por pedras portuguesas. Registros da gestão de Faria Lima indicavam a vencedora apenas pelo termo “funcionária”. Pablo Figueiredo, autor do estudo, aponta que o gênero e o cargo da servidora podem ter colaborado para a ausência de crédito.
“Um dos dias marcantes na trajetória de Mirthes foi quando ela viu estampado no Jornal Folha de S.Paulo o resultado do concurso, em que seu projeto tinha sido escolhido como proposta vencedora, embora a publicação não tenha mencionado o seu nome em nenhuma linha”, afirma Cid Freitas, sobrinho da artista.
Direitos autorais e conservação do patrimônio
A patente do desenho industrial ocorreu apenas em 1972, após mudanças no comando da prefeitura. O reconhecimento dos direitos autorais foi formalizado em 1981, anos depois da aplicação do piso em vias como as avenidas Ipiranga e Indianópolis. Mirthes relatou em entrevistas a falta de compensação financeira pela reprodução do seu trabalho.
Atualmente, o calçamento paulista sofre com a falta de preservação e a troca por concreto em obras viárias. Ao contrário do modelo do Rio de Janeiro, o padrão de São Paulo não possui tombamento oficial. “Obras recentes no centro de São Paulo têm substituído trechos do antigo calçamento por pavimentação cimentada”, declara Figueiredo.
A recuperação dessa história visa preencher lacunas na memória cultural da cidade. Segundo Velloso, “ao recuperar documentos, entrevistas e memórias, a pesquisa ilumina a contribuição de Mirthes Bernardes e amplia a historiografia desse ícone urbano cuja história é tão pouco conhecida pelos próprios paulistanos”.
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