França está ainda mais endividada que o Brasil
Com dívida acima de 117% do PIB, França tem que pagar juros mais altos que os da Itália. Brasil deve menos, mas paga mais.
A França começou 2026 sob um cenário delicado nas contas públicas e no ambiente político, depois de uma sequência de impasses que chamaram a atenção dos investidores.
No fim de 2025, o país viveu um episódio raro na Zona do Euro, quando os juros pagos pelos títulos públicos franceses superaram os da Itália, economia historicamente vista como mais frágil no bloco.
Os papéis franceses de dez anos passaram a render cerca de 3,6%, acima dos italianos (3,5%), enquanto os alemães ficaram próximos de 2,8%, um sinal claro de maior cautela do mercado em relação a Paris.
Esse movimento está ligado à combinação de déficits muito altos e instabilidade política.
O Parlamento francês não conseguiu aprovar o Orçamento de 2026 dentro do prazo, o que levou o primeiro-ministro Sébastien Lecornu a recorrer a uma lei emergencial para evitar um shutdown e manter o funcionamento do Estado.
A situação repetiu o ocorrido no ano anterior, quando a aprovação tardia do orçamento gerou custos adicionais relevantes para o Tesouro. A fragmentação entre esquerda, centro e direita tem bloqueado acordos mínimos sobre ajuste de despesas e receitas.
O Ministério das Finanças revisou a projeção de déficit público para 5,3% do PIB em 2026, praticamente o mesmo patamar de 2025 e o mais alto da Zona do Euro.
Para cobrir esse rombo e refinanciar dívidas que vencem neste ano, o governo planeja emitir cerca de 310 bilhões de euros em títulos. O gasto apenas com juros deve se aproximar de 60 bilhões de euros, ampliando a pressão sobre o orçamento.
Esse volume maior de endividamento está ligado, sobretudo, ao vencimento de dívidas antigas. Os pagamentos de empréstimos contratados no passado devem subir de 168 bilhões de euros em 2025 para quase 176 bilhões em 2026.
Já o déficit orçamentário anual da França segue estimado em cerca de 124 bilhões de euros e o custo para manter essa dívida cresce com essa alta dos juros, movimento reforçado pela piora da avaliação de crédito do país, o que encarece ainda mais o financiamento do Estado.
Isso por que as agências de classificação S&P Global e Fitch rebaixaram a nota soberana da França de AA- para A+, enquanto a Moody’s alterou a perspectiva para negativa.
Entre os fatores citados estão a dívida pública, que em 2019 era de 97,4% do PIB e ano passado chegou a 117,4%, e a dificuldade de produzir decisões fiscais consistentes por um governo que não tem uma maioria confiável no congresso nem desfruta de grande apoio popular.
Em comparação com o Brasil, o quadro fiscal é diferente em escala, mas guarda semelhanças no efeito sobre expectativas e juros.
A dívida pública brasileira está bem abaixo da francesa em proporção do PIB, na casa dos 78%, mas o custo do financiamento, se compararmos prazos semelhantes, é maior, pois nossa taxa de juros é bem mais alta, o que pesa mais no orçamento.
Assim como ocorre em Paris, a dificuldade de sinalizar um ajuste crível para os próximos anos mantém investidores atentos às decisões políticas e ao cumprimento das metas anunciadas (o Arcabouço Fiscal), frequentemente burladas com exceções cada vez mais numerosas.
Nos dois países, a mensagem é parecida: quando a política atrasa definições, aumenta gastos ao invés de cortar despesas, o equilíbrio das contas fica incerto, o preço do dinheiro sobe e o espaço de manobra do governo se reduz.
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Comentários (1)
Annie
07.01.2026 10:31O mundo endividado.