Gustavo Nogy na Crusoé: O que significa torcer?
Você torce, torce porque é absurdo, torce porque não controla, torce porque duvida. Ganhar, perder? Viver
Para João Nogy
Minhas primeiras lembranças da bola vêm de quando eu tinha seis anos de idade. Eu conhecia pouco da vida, mas já sabia que Deus era argentino, driblava ingleses e fazia até gol de mão.
Quando a Copa do Mundo de 1986 acabou, eu tinha aprendido uma palavra nova. Minto: três palavras novas – Diego Armando Maradona.
Já no planeta Terra, entre os mortais, meus prosaicos ídolos prometiam e não cumpriam a promessa de todos os anos, desde que Ademir da Guia fez seu último gol, em 1977, pelo clube do meu coração, dos meus nervos, das minhas entranhas, das minhas insônias, das minhas unhas: a Sociedade Esportiva Palmeiras.
Sou um filho da fila. Chorei muito antes de sorrir. Nasci depois que o Divino parou de fazer milagres.
Durante anos eu via meu time perder e os times dos outros ganharem. Via? Ouvia. Ouvia? Adivinhava.
O futebol, naquela época, consistia em decifrar os ruídos que saíam de um perseverante radinho de pilha, que transmitia com muita má vontade os jogos na frequência AM (amplitude modulada).
Era preciso a astúcia de um Alan Turing para entender o que berravam os narradores.
À noite, os acontecimentos quase sempre dolorosos eram mostrados em trinta ou quarenta segundos no quadro “Os Gols do Fantástico”.
Nem sempre havia gols do meu time, que tampouco era fantástico. A década de 80 não foi a década perdida para o Brasil. Foi a década perdida para mim. Para o time que aprendi a torcer porque meu pai também torcia por ele.
Não havia, acreditem os incréus, dezessete câmeras que filmassem cada gota de suor escorrida da testa de cada jogador. Não havia ângulo invertido. Não havia transmissões diárias. Não havia abundância de reprises ou compactos.
O amor de um torcedor por seu time era um ato de fé. O lance duvidoso permaneceria duvidoso. A falha do goleiro, o gol perdido, o pênalti não marcado – seriam episódios esquecidos e depois reinventados. Não havia certezas.
Ao contrário de hoje, em que Torquemadas exigem vitórias, brandem bíblias, gritam dogmas, torcer era apenas torcer.
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