Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro

24.01.2026

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Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro

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Redação O Antagonista
5 minutos de leitura 04.12.2025 19:03 comentários
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Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro

A luta pela preservação da língua Hadzane, falada pelo povo Hadzabe no norte da Tanzânia, ganhou destaque internacional

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Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro
Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro - Créditos: depositphotos.com / katiekk

A luta pela preservação da língua Hadzane, falada pelo povo Hadzabe no norte da Tanzânia, ganhou destaque internacional.

Em meio à expansão do suaíli e à pressão de modelos econômicos modernos, esse idioma de cliques, considerado um dos mais antigos ainda em uso, enfrenta risco de desaparecimento, o que desperta a atenção de pesquisadores, organizações internacionais e defensores de direitos indígenas.

Hadzane como língua ancestral e elemento central da identidade Hadzabe

No cotidiano das aldeias, escolas e mercados, o suaíli se consolidou como língua de estudo, comércio e serviços públicos, provocando mudanças discretas, porém constantes, nas escolhas linguísticas das famílias Hadzabe.

Quando pais passam a se comunicar com os filhos principalmente em suaíli, a transmissão da língua Hadzane é interrompida, o que preocupa linguistas e lideranças locais pela perda de um patrimônio cultural e de um modo singular de compreender o ambiente.

A língua Hadzane costuma ser descrita como um sistema linguístico singular, marcado por sons de clique e estruturas pouco relacionadas às línguas vizinhas.

Uma pesquisa da Universidade da Califórnia indica que esse idioma registra práticas de caça, coleta e convivência com a savana que remontam a milhares de anos, tornando-se um elemento central de identidade, pertencimento e organização social para a comunidade Hadzabe.

Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro
Deixar morrer uma língua de 90.000 anos pode ser o erro mais caro do nosso futuro – Créditos: depositphotos.com / katiekk

Como o vocabulário ecológico em Hadzane preserva conhecimentos tradicionais

A língua reúne um vocabulário específico para descrever plantas, animais, ciclos de chuva e rotas de deslocamento, articulando linguagem e memória ecológica.

Termos aparentemente simples guardam orientações sobre épocas de colheita, rastreamento de animais e manejo sustentável de recursos naturais, funcionando como um manual oral para viver em equilíbrio com o território.

A perda de fluência entre os mais jovens pode reduzir a circulação desse saber tradicional e fragilizar a transmissão de técnicas de sobrevivência na savana. Por isso, alguns projetos vêm registrando nomes de espécies, histórias de origem e rotas sazonais em Hadzane, associando o idioma a mapas culturais e materiais pedagógicos usados em oficinas comunitárias.

Como a língua Hadzane se conecta à conservação ambiental

A associação entre a língua Hadzane e a proteção ambiental está no centro de vários projetos atuais, que veem o idioma como chave para interpretar o território. A sabedoria acumulada pelo povo Hadzabe sobre plantas medicinais, fontes de água e movimentação da fauna interessa diretamente a iniciativas de conservação da biodiversidade e de adaptação às mudanças climáticas locais.

Organizações parceiras costumam adotar estratégias que aproximam língua, território e economia, criando usos concretos para o idioma no presente. Guias de ecoturismo Hadzabe, por exemplo, explicam paisagens, trilhas e histórias na própria língua Hadzane, com tradução para visitantes, gerando renda e reforçando o orgulho linguístico em atividades sustentáveis.

Qual é o papel da Década Internacional das Línguas Indígenas na proteção do Hadzane

Entre 2022 e 2032, a Década Internacional das Línguas Indígenas, promovida pela UNESCO, colocou o tema no centro de agendas globais, ressaltando o valor prático desses idiomas.

No caso dos Hadzabe, essa iniciativa reforça a ideia de que a língua Hadzane representa sistemas de conhecimento, visões de mundo e formas de organização social que podem orientar políticas de educação, saúde e governança local.

Os esforços se articulam em três frentes principais, frequentemente mencionadas por projetos que envolvem o povo Hadzabe e sua língua Hadzane.

  • Fortalecimento das novas gerações: criação de materiais didáticos bilíngues, oficinas de contação de histórias em Hadzane e formação de jovens como monitores linguísticos.
  • Integração entre cultura e conservação: participação direta dos Hadzabe em programas de gestão de áreas protegidas, com uso da língua local em reuniões, relatórios comunitários e sinalização ambiental.
  • Ampliação da voz nos meios de comunicação: incentivo a produções em Hadzane, como podcasts, vídeos curtos, registros musicais e documentários que apresentem a perspectiva da própria comunidade.

O canal do YouTube Documentários Ruhi Çenet divulgou um grande documentário que mostra detalhadamente a cultura, a história e a sobrevivência do povo Hadza, em um vídeo com mais de 90 milhões de visualizações:

Quais estratégias garantem o futuro da língua Hadzane

A sobrevivência da língua Hadzane depende da combinação de iniciativas internas e apoio externo consistente, articulando família, escola e comunidade.

Dentro das aldeias, encontros intergeracionais, rituais tradicionais e narrativas orais mantêm o idioma em circulação, com anciãos atuando como principais contadores de histórias e guardiões da memória coletiva.

Em paralelo, escolas que aceitam a língua indígena em sala de aula e projetos tecnológicos registram Hadzane em diversos formatos, apoiando a transmissão entre gerações.

Gravações de áudio, pequenas gramáticas, dicionários bilíngues, aplicativos de vocabulário e parcerias com universidades ajudam a ligar o idioma a oportunidades de trabalho, à preservação ambiental e à visibilidade social.

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