Crusoé: O braço violento de Maduro na América Latina
Como o Trem de Aragua saiu dos presídios venezuelanos e se tornou o braço criminoso internacional do chavismo
Nascido no presídio de Tocorón, o Trem de Aragua (TdA) é uma organização criminosa venezuelana exportada pelo regime de Nicolás Maduro a outros países da América Latina.
De dentro e fora das prisões, o grupo funciona como um instrumento do chavismo para projetar influência e financiar a ditadura por meio do narcotráfico, contrabando, extorsão e redes internacionais de exploração.
Outro grupo ligado ao narcotráfico, o Cartel de Los Soles, que tem o ditador Nicolás Maduro em seu comando, fornece rotas, proteção institucional e acesso a armas ao Trem de Aragua.
Para entender melhor o funcionamento do TdA, Crusoé entrevistou José Gustavo Arocha, que foi preso pelo regime de Maduro em 2014, sob acusação de traição.
Ele passou oito meses em uma solitária e foi torturado em uma prisão subterrânea chamada La Tumba.
No ano seguinte, Arocha fugiu para os Estados Unidos, onde tornou-se referência no estudo do crime organizado venezuelano. Ele também fala sobre como o regime chavista transformou o TdA em uma máquina híbrida de poder estatal e criminoso.
Leia a seguir a entrevista.
Qual é a relação entre o Trem de Aragua e o Cartel de los Soles, de Maduro?
Há uma relação direta. Em junho, os EUA impuseram sanções ao Cartel de los Soles, considerado uma entidade terrorista global.
Segundo os americanos, o Cartel de los Soles fornece apoio material a organizações terroristas estrangeiras como o Trem de Aragua e o Cartel de Sinaloa, do México.
Em troca, o Trem de Aragua fornece ao regime mão de obra violenta e recursos financeiros, obtidos a partir de controle territorial, extorsão, tráfico de pessoas e outras economias criminosas.
Durante anos, o Trem de Aragua se fortaleceu graças a acordos entre líderes prisionais, autoridades penitenciárias e altos funcionários, até transformar a prisão de Tocorón em um quartel-general de uma rede criminosa que operava com o conivência do Estado.
O que o senhor quer dizer com fornecer mão de obra violenta para o regime de Maduro?
No Chile, o sequestro e assassinato do ex-tenente venezuelano Ronald Ojeda foi vinculado às células do Trem de Aragua.
Em alguns momentos, há operações conjuntas com o Cartel de los Soles.
Na Colômbia e outras áreas de fronteira, relatórios de inteligência e imprensa descrevem fluxos de cocaína e ouro onde se sobrepõem rotas controladas pelo Cartel de los Soles e operadores do TdA, como no caso de pilotos de lanchas de narcotráfico.
Tudo isso reforça a ideia de que não são mundos separados, mas partes de uma mesma maquinaria criminal-estatal que projeta poder e financiamento dentro e fora da Venezuela.
A gangue foi formada no presídio de Tocorón, na Venezuela. O regime de Maduro já realizou alguma operação contra o TdA?
Houve uma tomada policial do presídio de Tocorón, em 2023. Mas esse é um exemplo de como o Trem de Aragua sobrevive a golpes aparentes.
A ditadura venezuelana mobilizou cerca de 11 mil agentes e apresentou a operação como o “fim” da gangue, mas organizações como o Observatório Venezuelano de Prisões denunciaram que foi uma intervenção negociada.
O líder prisional Niño Guerrero e dezenas de seus subordinados teriam deixado a prisão dias antes por um túnel de vários quilômetros, levando armas e dinheiro, enquanto muitos outros presos escapavam sem serem recapturados.
Depois, reportagens mostraram que a estrutura do comando prisional continuou operando de outras prisões e territórios.
Quais são as fontes de receitas do TdA?
A extorsão é o coração de seu modelo de negócio. A organização passou a depender quase exclusivamente da cobrança de “la causa” dentro das prisões — o imposto pago pelos detentos ao comando prisional.
Primeiro nos presídios e depois nas comunidades e países onde se expandiu. Onde o TdA entra, cedo ou tarde se estabelece uma lógica de “imposto” criminoso: pagar para viver, trabalhar ou simplesmente não ser atacado.
Os relatórios mostram que tanto detentos quanto comerciantes em áreas controladas por presídios como Tocorón devem pagar taxas periódicas para não serem agredidos ou para recuperar bens roubados, muitas vezes com a cumplicidade de agentes de segurança.
No Chile, Peru e Colômbia, as investigações descrevem esquemas muito semelhantes: comerciantes, transportadores e migrantes obrigados a pagar taxas semanal ou mensalmente em troca de “proteção” ou para não serem sequestrados.
Com base na extorsão, o Trem de Aragua diversifica sua renda com tráfico de pessoas, especialmente exploração sexual de mulheres migrantes, tráfico de drogas em bairros populares de Lima, Santiago ou Bogotá, e controle de atividades ilegais ligadas à mineração de ouro e outras rendas no Arco Mineiro do Orinoco.
Parte significativa dessa renda é compartilhada com redes de altos mandos militares e políticos conhecidas como o Cartel de los Soles, tornando o TdA uma espécie de arrecadador paralelo em prisões, áreas de mineração e rotas migratórias, a serviço de uma elite que utiliza o crime organizado como fonte de financiamento e controle.
Como o TdA ganha dinheiro com os migrantes?
Há muitas evidências de que o TdA e redes criminosas associadas transformaram a migração venezuelana em uma de suas principais fontes de renda, combinando “coyotaje” e tráfico baseado em dívidas.
Na Colômbia, a Defensoria do Povo alertou já em 2022 sobre supostos “pacotes turísticos” da Guajira e da ilha de San Andrés para a América Central, usados na realidade para empurrar migrantes pela selva do Darién e México.
Reportagens sobre naufrágios de embarcações saindo de San Andrés e Necoclí mostram que esses pacotes “tudo incluído” podem custar entre 1.500 e 4.000 dólares por pessoa, valores que coincidem com relatos das próprias vítimas sobre o preço de cruzar a rota com coyotes.
Primeiro, eles…
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