Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça Rosalía

08.10.2026

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O Antagonista
Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça Rosalía
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Gustavo Nogy
3 minutos de leitura 13.11.2025 18:37 comentários
Análise

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça Rosalía

Rosalía se arrisca até o limite do kitsch em 'Lux', e entrega uma obra-prima que não se esgota em uma ou duas audições

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Gustavo Nogy
3 minutos de leitura 13.11.2025 18:37 comentários 0
Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça Rosalía
Rosalía, em Lux. Divulgação

Rosalía não é fácil de ser etiquetada. Ela não para quieta. Pensando bem, ela até para quieta, se preciso, mas para criar algo diferente, que inquietará quem nunca consegue ouvir um disco feito de começo, meio e fim.

Embora cante os amores e, principalmente, os desamores, embora cante o mundo e para todo mundo, suas intenções – segundas intenções – são outras. Fazer do pop um atalho que leve ao clássico. Fazer do profano o caminho ao espiritual.

Antecipar a aceitação de um álbum nunca é boa ideia. É mais ou menos como exagerar nas recomendações de um filme de comédia; quem aceita a dica e assiste, nunca vê a graça que vimos, nunca ri das piadas como rimos. Mas Rosalía prometeu e cumpriu.

Depois do sucesso de Motomami (2022), que havia sucedido os dois primeiros e ótimos Los Angeles (2017) e El mal querer (2018), não se sabia ao certo o que esperar da catalã com um pé na música clássica e outro nos ritmos populares.

Considerando a pressa imposta à música pop na era das redes e mídias sociais, a demora da cantora poderia indicar esgotamento criativo ou falta de rumo estético. De repente, ela volta e grita – em voz perfeitamente projetada – “Faça-se a luz!”, e o Lux se fez. Que discaço.

Num tempo de música derivativa e artistas indiscerníveis entre si, feitos de efeitos, caras, bocas e desabafos genéricos, Rosalía se meteu a aprender treze idiomas diferentes – mandarim, latim, árabe, francês, alemão, português, ucraniano, italiano, japonês, inglês, siciliano, catalão… até espanhol.

Enfeixou versos em dezoito faixas divididas em quatro movimentos, e aproveitou as liberdades do pop para implodi-lo com as convenções do erudito. Por incrível que pareça, nada sobra, ainda que haja tanto. O que poderia soar kitsch – cafona, pretensioso, entediante – soa… genial. Pois é, a palavrinha usada para falar bem de tanta bobagem, aqui tem lugar de fala. Ou de canto.

Ao The New York Times, ela esbofeteia o Zeitgeist: “Eu simplesmente tento ser uma artista da melhor maneira possível e me dedicar à experimentação. Seja ficando em casa, escrevendo letras por um ano inteiro – ou acordando cedo, quase sem dormir, para ir ao estúdio e ficar 14 horas trabalhando em mixagens, mesmo sem nunca deixá-las perfeitas o suficiente – é isso que significa para mim”.

Na capa de Lux, Rosalía aparece vestida como freira. Sem pudor, assume seus pudores religiosos. Ela não se limita a sugerir preocupações místicas, nem admite diluir símbolos, dogmas e mandamentos em termos vagos e imprecisos, que seriam mais bem-aceitos nesses tempos dessacralizados que são os nossos.

Desde a primeira música, “Sexo, Violencia y Llantas”, trata o cristianismo com a sem-cerimônia dos cristãos que não temem dizer seu Nome. Enfia iconografia & metafísica goela abaixo de um público empanturrado de memes & dancinhas: “Quanto mais vivemos na era da dopamina, mais eu quero o oposto”. Queremos, deveríamos querer.

Se a música pop tem valor para além do preço, e se a indústria cultural produz arte e não apenas manufatura, Lux é uma resposta agostiniana (Santo Agostinho, lembram dele?) ao irônico ou satânico, com ou sem aspas, Like a Prayer, de Madonna, lançado em 1989. Ambos – o quarto álbum das respectivas artistas. Ambos – impactantes e influentes. Ambos – espirituais à sua maneira.

Sinceramente? Lux é maior, muitíssimo maior. Do tamanho da ambição de Rosalía.

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