Metaverso condominial: vizinhança virtual ou invasão de privacidade?
Segundo a Gartner, 25% das pessoas passarão pelo menos uma hora por dia no metaverso até 2026
A tecnologia já transformou o cotidiano dos condomínios em diversos aspectos: assembleias digitais, portarias remotas, aplicativos de gestão e câmeras inteligentes.
Agora, uma nova fronteira começa a ser discutida: o metaverso condominial, um ambiente virtual onde moradores poderiam interagir por meio de avatares, deliberar em assembleias, acompanhar obras em tempo real ou até simular o uso de áreas comuns antes de sua ocupação.
Segundo um levantamento da consultoria Gartner (2024), 25% das pessoas passarão pelo menos uma hora por dia no metaverso até 2026, seja para trabalho, lazer ou interação social. Esse dado abre espaço para imaginar como essa tendência pode influenciar também a vida em comunidade nos prédios e residenciais.
No entanto, a novidade vem carregada de dilemas: até onde a realidade virtual pode ser ferramenta de convivência e até onde se torna uma invasão de privacidade?
Assembleias no metaverso: praticidade ou exclusão digital?
A pandemia impulsionou a adoção de assembleias virtuais, que passaram a ter respaldo jurídico com a Lei 14.309/2022, permitindo votações eletrônicas. O metaverso seria um passo além: uma assembleia com avatares em um ambiente tridimensional.
Apesar da inovação, especialistas destacam riscos.
O metaverso pode aproximar os moradores e dar mais dinamismo às assembleias, mas também pode gerar exclusão de condôminos que não dominam a tecnologia, especialmente os mais idosos”, explica o especialista em gestão condominial Marcio Zaitz.
Segundo pesquisa do IBGE (2023), apenas 56% dos brasileiros acima de 60 anos utilizam a internet diariamente, o que poderia ampliar a desigualdade de participação se o metaverso fosse adotado como canal principal de deliberação condominial, uma solução seria realizar assembleias híbridas, combinando o ambiente virtual com a participação presencial para os menos familiarizados com tecnologia, garantindo os benefícios da inovação sem prejudicar a inclusão, afirma Marcio Zaitz.
Privacidade e proteção de dados: o ponto mais crítico
O uso do metaverso em condomínios envolve coleta massiva de informações: localização, voz, expressões faciais e até comportamento digital dos moradores. Com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2020 e atualizada em 2025 para ampliar a proteção de dados sensíveis, os síndicos e administradoras precisam garantir segurança e transparência no tratamento dessas informações.
“Se um condomínio adotar tecnologias de realidade virtual, precisará implementar políticas rígidas de proteção de dados. O risco de vazamento ou uso indevido é enorme e pode gerar responsabilização civil do condomínio”, alerta Felipe Faustino.
Um relatório da Accenture (2024) mostra que 72% dos consumidores têm receio sobre privacidade em ambientes virtuais, reforçando a necessidade de regulamentação clara antes da adoção massiva no contexto condominial.
Uso das áreas comuns no metaverso
Imagine agendar a churrasqueira, a academia ou o salão de festas dentro de um ambiente virtual, testando previamente a lotação do espaço ou até “visitando” a área em 3D antes da reserva. Essa funcionalidade pode aumentar a organização interna, mas também traz desafios: quem terá acesso a esses dados? As imagens virtuais podem ser usadas para fins comerciais?
Para o advogado, é preciso cautela: “A utilização do metaverso para simular áreas comuns pode facilitar a gestão, mas qualquer compartilhamento de imagens ou interações precisa ser previamente autorizado pela convenção condominial. Caso contrário, abre espaço para litígios”.
Riscos jurídicos e regulamentação
Até o momento, não existe legislação específica para metaverso em condomínios. Porém, normas já consolidadas, como o Código Civil (art. 1.334 a 1.358) e a própria LGPD, podem ser aplicadas por analogia. Além disso, decisões judiciais sobre assembleias virtuais tendem a servir de referência.
De acordo com pesquisa da ABRASCOND (Associação Brasileira de Síndicos, 2024), 68% dos síndicos acreditam que o metaverso pode ser uma tendência futura, mas apenas 12% estariam prontos para adotá-lo, justamente pela falta de regulamentação jurídica.
O metaverso condominial pode parecer distante, mas já está no radar de administradoras e construtoras que buscam inovação. Ele promete mais praticidade, integração e até modernização da vida coletiva, mas também levanta sérias questões sobre inclusão digital, privacidade e segurança jurídica.
“A tecnologia pode ser aliada, mas não pode atropelar direitos fundamentais dos moradores. O metaverso condominial, se vier a ser adotado, precisará estar amparado por regulamentação clara, respeito à LGPD e, sobretudo, pela vontade da coletividade”, destaca Felipe Faustino.
Assim, o futuro dos condomínios pode estar no mundo virtual, mas o desafio será garantir que a modernidade não crie novos conflitos em vez de solucioná-los.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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