O “desastre” e o “sucesso” da guerra no Rio

25.09.2026

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O Antagonista
O “desastre” e o “sucesso” da guerra no Rio
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Felipe Moura Brasil
5 minutos de leitura 29.10.2025 14:47 comentários
Análise

O “desastre” e o “sucesso” da guerra no Rio

Manifestações políticas dependem muito pouco dos fatos objetivos de cada operação

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Felipe Moura Brasil
5 minutos de leitura 29.10.2025 14:47 comentários 6
O “desastre” e o “sucesso” da guerra no Rio
Foto: RS/Fotos Públicas

A guerra de narrativas é inerente às guerras contemporâneas, porque a opinião pública sobre cada batalha interfere na imagem de pessoas, grupos e governos, rendendo maior ou menor apoio a suas teses e condutas, o que pode definir os rumos não apenas das vidas humanas em jogo, mas do poder político, militar, policial, cultural, econômico e cívico.

Seja em Gaza, na Ucrânia, ou no Rio de Janeiro, a pressão decorrente da percepção geral tem efeitos diretos e indiretos sobre os desdobramentos da guerra em si e, para além dela inclusive, sobre as margens de ação e reação de cada uma das partes envolvidas.

A guerra propriamente dita, em razão do fogo cruzado e das barricadas, já impõe dificuldades práticas e logísticas à cobertura jornalística. A guerra de narrativas turbina essas dificuldades, à medida que multiplica a oferta e a circulação de sínteses enganosas, de forte apelo emocional, fabricadas para gerar empatia com um lado e ojeriza a outro, quando não apenas uma afetação genérica de virtude pacifista.

Extrair os fatos objetivos da guerra propriamente dita, em meio à guerra de narrativas, para só então analisar responsabilidades específicas e demais questões de interesse público, é o desafio de um jornalismo responsável e independente.

A guerra do Rio, estourada com a megaoperação policial de terça-feira, 28, nos complexos do Alemão e da Penha, é mais um episódio politicamente divisivo, desses que contrapõem de imediato uma esquerda historicamente leniente com o crime organizado em nome dos “direitos humanos” e um bolsonarismo historicamente leniente com abusos policiais em nome da “ordem”.

A esquerda, alinhada ao presidente Lula, do PT, mistura de antemão bandidos e moradores inocentes, em sua alegada defesa da “comunidade”, enquanto o bolsonarismo, alinhado ao governador Cláudio Castro, do PL, sai em defesa de qualquer operação, a despeito de eventuais erros e excessos.

Esses posicionamentos dependem muito pouco de fatos objetivos de cada episódio, como se atesta até pela rapidez com que são manifestados nas arenas virtuais e midiáticas, antes de virem à tona as circunstâncias das mortes e demais elementos esclarecedores.

Enquanto escrevo este artigo, por exemplo, o número de mortos na megaoperação de terça passa de 130, segundo a Defensoria Pública. Há certezas sobre a morte de quatro policiais e de dezenas de membros de facção, mas, enquanto a Polícia Civil identifica os corpos, ainda não há evidência disponível de que todos os demais eram bandidos, nem tampouco de que eram inocentes. Já o governo do Rio afirma que foram 119 mortos, sendo “115 narcoterroristas”.

Um dos motivos pelos quais eu, Felipe, contrariando o bolsonarismo, defendo há anos a necessidade de câmeras em uniformes policiais e em demais equipamentos usados em operações como essa é justamente para que seja possível esclarecer, com vídeos, as dúvidas sobre as circunstâncias de cada morte.

As imagens divulgadas até o momento são suficientes para levar à conclusão de que o Comando Vermelho reagiu aos policiais com disparos de fuzil e drones-bomba, mas insuficientes para esclarecer todos os casos.

De todo modo, ficou evidente o domínio territorial do CV, bem como seu poder bélico, até porque quase 100 fuzis foram apreendidos e mais de 80 criminosos acabaram presos.

Dois dias antes, 70 faccionados ainda tentaram invadir o Morro da Quitanda, dominado pelo Terceiro Comando Puro, uma facção rival. No tiroteio, duas pessoas inocentes morreram: um jovem de 30 anos e Marli Macedo dos Santos, de 60, que estava em casa, com um irmão, quando um criminoso do CV invadiu o local para fugir de traficantes do TCP. Eles metralharam a residência e lançaram granadas para tentar matar o invasor. Quando a Polícia Militar chegou, Marli, ao contrário de seu irmão, estava ferida. Ela ainda foi levada para um hospital em Realengo, mas não resistiu, e morreu.

A megaoperação no Alemão e na Penha buscava cumprir 100 mandados de prisão e conter a expansão territorial do CV, que, como visto, já vinha provocando mortes de inocentes. Mas a esquerda, assim como ignora palestinos executados pelo Hamas e civis ucranianas assassinadas por drones russos, ignora também brasileiros inocentes mortos em guerras entre facções. Sem judeus nem policiais envolvidos, nunca há a mesma atenção esquerdista, porque os fatos não se encaixam em suas narrativas binárias sobre opressores e oprimidos.

As ideias de que criminosos devem ser presos para não voltarem a cometer crimes, e de que, em caso de reação armada, podem ser eliminados em legítima defesa das forças de segurança e da sociedade, soam reacionárias demais a mentes complacentes com “uma mortezinha aqui, outra ali” de civis, ademais oprimidos e extorquidos pelas facções.

Essa esquerda política e midiática rapidamente chamou de “desastre” a megaoperação, ao que Castro reagiu chamando de “sucesso”. Ambos são rótulos simplistas para um episódio complexo e dramático, ainda não inteiramente esclarecido. O desastre sabido, no entanto, é a falta de soberania do Estado brasileiro e de democracia em territórios dominados pelo crime organizado. E o único sucesso seria retomá-los, preservando o máximo possível de vidas inocentes. Em meio às guerras propriamente ditas e de narrativas, o problema de sempre é, no percurso, avaliar o preço de cada escolha.

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Felipe Moura Brasil

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Comentários (6)

Pedro Paulo Neves

30.10.2025 09:50

Excelente análise do contexto atual .


MARCOS

29.10.2025 20:15

O CULPADO PELA MORTE DAS ÚNICAS QUATRO VÍTIMAS É O GOVERNO FEDERAL. ENGRAÇADO FOI ENCONTRAR OS CORPOS DOS TERRORISTAS SÓ DE CUECA NO MEIO DA MATA. TAVAM FAZENDO BACANAL?


Alberto de Araújo

29.10.2025 19:01

Normalmente definíriamos esse episódio, como "isso é um caso de polícia". Há muito deixou de sê-lo. É caso de governo, eleito para dar segurança ao povo.O povo nas guerras ficam sempre angustiado , podendo ser vítima de uma bomba atirada pelos inimigos. Aqui há também angustia como medo de balas perdidas e guerras entre traficantes e operações policiais. Concordo que tanto o Lula como Bolsonaro fracassaram nessa tarefa. Os dois são aves da mesma plumagens; populistas.


Fabio B

29.10.2025 16:36

Foram 4 vítimas, né? Eu acho muito, porque o preço dessas vidas é inestimável. Mas ponho a culpa no governo federal que negou o apoio e envio de blindados.


Eliane ☆

29.10.2025 15:34

Sim, há inocentes e culpados em meio a tudo isso. Ouvi opiniões de comentaristas da esquerda e da direita. Cada um criticando e defendendo conforme sua ideologia. Fico em dúvida se acabar com as favelas (comunidades) resolveria; ideia de alguns parlamentares da direita. E também, onde encontrar recursos para "desfavelar"a quantidade de favelas ? De uma certeza eu tenho: o Brasil está largado, a" Deus dará ".


Luis Roberto Ferreira

29.10.2025 15:12

Análise precisa dos fatos feita por um dos pouquíssimos bons jornalistas do nosso país.


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