Al Jazeera dá espaço para negacionismo do genocídio cristão na Nigéria e gera polêmica
Emissora financiada pelo Catar chama denúncias de “propaganda” e omite relatórios que registram milhares de cristãos mortos no país africano
A Al Jazeera, emissora controlada pelo governo do Catar, publicou em 2 de outubro artigo afirmando que “não há genocídio cristão na Nigéria” (veja aqui).
O texto, assinado pelo colunista Gimba Kakanda, descreve os massacres como “disputas étnicas” e “conflitos agrários”. A posição diverge de dados divulgados por organizações religiosas, civis e agências internacionais que documentam ataques sistemáticos a comunidades cristãs.
Segundo o relatório World Watch List 2025, da organização Open Doors, 4.476 cristãos foram assassinados na Nigéria apenas entre outubro de 2023 e setembro de 2024.
A entidade aponta que o país concentra a maioria das mortes de fiéis por motivação religiosa em todo o mundo.
A jornalista sul-africana Lara Logan, ex-correspondente da CBS News, classificou a Al Jazeera como “profundamente errada” e afirmou que os ataques são motivados por ideologia jihadista, não por “mudanças climáticas” ou “disputas agrárias”, como sugere o artigo.
Segundo Logan, assassinos que “carregam a bandeira negra da Al-Qaeda e gritam ‘Allahu Akbar’ enquanto massacram mulheres e crianças não estão em busca de terras, mas de eliminar comunidades cristãs”.
O ator nigeriano Joseph Chidi Okechukwu anunciou intenção de liderar um boicote à emissora se ela não retirar o artigo e pedir desculpas públicas.
Ele acusou a Al Jazeera de casuísmo, lembrando que a emissora classifica a guerra em Gaza como genocídio, mas nega a mesma designação aos massacres de cristãos na Nigéria.
Entidades cristãs internacionais e veículos como o Sahara Reporters e a Deutsche Welle também questionaram a imparcialidade da publicação.
Nas redes sociais da Al Jazeera, o artigo recebeu milhares de comentários negativos, muitos denunciando viés político e religioso. Diante das críticas, Kakanda defendeu o texto em sua página pessoal.
As reações foram majoritariamente desfavoráveis à emissora e ao autor.
Jornalistas e organizações de direitos humanos apontaram três pontos centrais: negação de dados documentados, desqualificação de testemunhos de vítimas e conflito de interesse por parte de um funcionário público que nega crimes atribuídos ao próprio governo.
A Intersociety, organização nigeriana de direitos humanos, registrou 7.087 assassinatos apenas nos primeiros 220 dias de 2025, além de 7.800 sequestros.
O Vaticano estima que mais de 52 mil cristãos foram mortos desde 2009 em ataques de grupos jihadistas.
Entre os responsáveis estão Boko Haram, a facção Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP) e milícias Fulani armadas.
Relatórios da União Europeia e de agências humanitárias afirmam que esses grupos miram deliberadamente comunidades cristãs, com relatos de conversões forçadas e destruição de templos.
Em comunicado publicado em 7 de outubro, a Associação Cristã da Nigéria (CAN) confirmou que “muitas comunidades cristãs, especialmente no Norte, sofreram ataques severos, perda de vidas e destruição de locais de culto”.
A entidade contestou publicações que tentaram associar seu nome à negação da perseguição religiosa e pediu “ação urgente e transparente” do governo nigeriano.
A Al Jazeera não mencionou esses dados em seu artigo e manteve a tese de que a violência na Nigéria não tem motivação religiosa.
Apesar das evidências de manipulação do noticiário, a emissora continua a ser tratada por parte da imprensa internacional como referência em jornalismo.
Quem é Gimba Kakanda
O autor do artigo, o muçulmano Gimba Kakanda, é escritor e colunista nigeriano ligado ao governo do país.
Desde 2023, ocupa o cargo de assistente especial sênior do vice-presidente Kashim Shettima, com funções de pesquisa e análise política no gabinete presidencial.
Conhecido por sua atuação no jornal Daily Trust e por colunas alinhadas ao discurso oficial, Kakanda integra o grupo de 18 assessores nomeados pelo presidente Bola Tinubu para compor a equipe do vice-presidente.
É próximo de figuras do Partido Progressista do Congresso (APC) e costuma defender publicamente as políticas de segurança e de comunicação do governo.
Em 2012, Kakanda organizou um grupo de jovens muçulmanos em Minna para proteger uma igreja católica durante cultos, como gesto de solidariedade inter-religiosa após ataques do Boko Haram.
Na época, ele defendia a coexistência pacífica entre as religiões na Nigéria.
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