Na Feira do Livro de Frankfurt, defesa da criatividade e críticas às big techs
Representantes do setor editorial protestam contra gigantes de tecnologia e fazem ressalvas sobre o valor da arte produzida por algoritmos
Começou na última terça-feira, 14, e vai até domingo, 19, a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, maior e mais tradicional evento do setor editorial no mundo. O tom, mais do que comercial, foi de manifesto. Já nos primeiros discursos, representantes do mercado, escritores e políticos propuseram “resistir” à concentração de poder exercida por grandes corporações de tecnologia na era da inteligência artificial (IA).
Segundo o PublishNews, o debate incide sobre a relevância do próprio evento em meio a rápidas e intensas transformações tecnológicas e suas repercussões sociais.
A principal tese defendida pelos líderes do setor trata da exigência de remuneração adequada a editores e criadores, e da proteção aos respectivos direitos autorais. O ministro da Cultura alemão, Wolfram Weimer, presente no evento, instigou a audiência a monitorar de perto a atuação dos oligopólios de tecnologia que administram as ferramentas digitais.
Ele argumentou que o futuro da IA, baseado na exploração e nivelamento do conteúdo, ameaça desmantelar a potência da criatividade, reduzida a “mineração de dados”.
Weimer criticou as gigantes tecnológicas americanas e chinesas que utilizam, há aproximadamente cinco anos, o conteúdo e as conquistas criativas de terceiros para alimentar seus empreendimentos. Essa apropriação ocorre sem a devida solicitação ou permissão dos autores e editoras.
Para o ministro, essa exploração de “culturas inteiras” configura “um tipo de colonialismo digital que não podemos mais aceitar”. Em resposta, ele defendeu a necessidade de destruir os monopólios empresariais e estabelecer regulações estritas e proteções sólidas aos direitos autorais.
Karin Schmidt-Friderichs, diretora da Associação Alemã de Editores e Livreiros, criticou a vasta concentração de poder. Ela observou que um número reduzido de bilionários seleciona algoritmos sem aderir a regras ou assumir responsabilidade pelo conteúdo que veiculam.
A diretora alertou que a sociedade está vulnerável quando a IA é operada por “oligopólios irresponsáveis”. Ela sublinhou que a inovação tecnológica deve ser orientada pelo princípio do fair play e servir à sociedade, e não o oposto.
Defesa da integridade criativa e conexão global
O diretor da Feira, Juergen Boos, enfatizou a relevância política do encontro global em um contexto de fronteiras sociais e geopolíticas em ascensão. A identidade da Feira está intrinsecamente ligada à sua capacidade de “conectar pessoas de todo o mundo”.
Boos afirmou que a habilidade de estabelecer conexões se tornou uma tarefa política que o evento deve enfrentar com renovada urgência.
A senadora das Filipinas, Loren Legarda, que representou o país convidado de honra, reforçou o poder da palavra. Ela homenageou o herói nacional José Rizal, que residiu em Heidelberg e traduziu obras alemãs, como as de Friedrich Schiller, um proponente da liberdade.
“A imaginação pode ser ameaçadora para tiranos porque fala de liberdade, e para cínicos porque insiste na esperança. (…) É um fogo que queima as diferenças, ilumina os cantos em que a injustiça se esconde. Por meio da nossa extensa programação, nos juntamos aqui para nos perguntar que tipo de imaginação pode surgir do poder das palavras, no maior encontro de ideias e histórias do mundo”, disse a senadora.
Em um gesto inusual, a organização da Feira selecionou a jovem autora alemã Nora Haddada para a coletiva de imprensa, em lugar do esperado Nobel de literatura, o húngaro László Krasznahorkai.
Haddada, autora de Blaue Romanze, defendeu a liberdade de expressão e a integridade dos criadores. Ela falou sobre as crises globais recentes e criticou o “silêncio” do meio editorial. A escritora incitou a coragem e a capacidade de provocação, só possíveis na alta literatura.
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