Retomada de favelas é homenagem tardia ao legado de Carlos Lacerda
Mesmo em fase inicial, o plano do governo do Rio retoma a visão de autoridade e urbanismo que Lacerda defendeu na Guanabara
A tentativa do governo do Rio de recuperar territórios dominados por facções criminosas ainda está no começo, mas já marca uma mudança simbólica.
Depois de anos de abandono, o Estado volta a afirmar sua autoridade em áreas onde o crime criou leis próprias. É cedo para prever resultados, mas a direção é correta e merece ser acompanhada com otimismo vigilante.
Carlos Lacerda, governador da antiga Guanabara entre 1960 e 1965, foi o primeiro a entender que a ausência do Estado nas periferias acabaria gerando poder paralelo.
No livro Depoimento, publicado em 1978, ele reconheceu ter sido “muito criticado por causa do programa de transferências das favelas”, mas explicou que o objetivo era moral e político.
“No Rio havia políticos que viviam da existência das favelas. Era uma bica que botavam! Uma lata de lixo! E viviam disso, se elegiam com isso”, disse.
Lacerda via a urbanização como um dever do Estado e um antídoto contra o populismo.
“Primeiro, as pessoas esquecem que, em muitos casos, não transferimos; procuramos melhorar as condições das favelas no próprio local. Agora, havia favelas impossíveis de melhorar”, explicou.
Foi assim que o governo Lacerda realizou a remoção das favelas da Catacumba e do Pinto, que ficavam às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. O governo construiu conjuntos habitacionais como Vila Kennedy e Vila Aliança para reassentar as famílias.
A reação da elite política e intelectual foi feroz.
Lacerda foi acusado de autoritarismo e elitismo. Mas o tempo mostrou que sua política tinha razão de ser.
Onde havia barracos e esgoto, surgiram praças, escolas e habitação planejada. Décadas depois, a ausência do Estado devolveu o poder às facções.
A retomada atual de comunidades como Rio das Pedras, Muzema e Gardênia Azul tenta, com atraso, corrigir esse erro histórico.
Outros países seguiram caminho semelhante.
Em El Salvador, Nayib Bukele reduziu a violência ao ocupar permanentemente as áreas controladas por gangues e impedir o retorno das maras.
Em Medellín, na Colômbia, o Estado primeiro retomou militarmente o território e depois levou urbanismo social, transporte e educação.
Ambos confirmaram o que Lacerda intuía: não existe vácuo de poder. Se o governo recua, o crime governa.
A retomada das favelas ainda é uma promessa, mas o gesto importa. Pela primeira vez em décadas, o Estado volta a disputar terreno com a ilegalidade. Lacerda dizia que “governo é presença, e presença é ordem”.
O Rio, ao seguir esse princípio, presta uma homenagem tardia ao homem que entendeu antes de todos que a cidade precisa ser governada. E que governar é ocupar o espaço público com autoridade, planejamento e dignidade.
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Comentários (2)
Marcio Barcellos
16.10.2025 16:28Infelizmente para o Rio, só teve um Lacerda
Carlos Renato Cardoso Da Costa
16.10.2025 15:50Uma iniciativa dessas, que vem com décadas de atraso, inicia-se em véspera de ano eleitoral. Como acreditar na viabilidade do projeto? Como crer que não será uma nova UPA?