Trump? Nobel vai para quem merece
Os velhinhos não costumam acertar nessa categoria, mas desta vez, por milagre, foram precisos
Quando o nome de Donald Trump começou a ser especulado como um dos favoritos ao prêmio Nobel da Paz, eu ri com gosto, porque a piada era boa mesmo. Parei de rir quando percebi que não era piada. Havia quem estivesse falando muitíssimo a sério, o que sugere que algo de muitíssimo sério acontece com o cérebro de certas pessoas.
“Mas ele pôs fim à guerra em Gaza!”, berrariam alguns.
De fato, algum papel nosso herói incidental teve para que Israel e Palestina – ou, a rigor, o autoritário Benjamin Netanyahu e os terroristas do Hamas – fizessem as pazes por alguns minutos, dias ou meses, não se sabe quantos, e acordassem sobre o cessar-fogo e a troca de reféns e prisioneiros.
Acontece que o fim – me perdoem o ceticismo: a suspensão – da carnificina se deve mais ao fato de que nem o Hamas, nem Netanyahu, sabiam como ou por quê continuar. A pressão internacional aumentava dia após dia. Trump se impacientava, porque está ocupado com outras guerras em curso, da Ucrânia ao comércio internacional, da imprensa às universidades, dos imigrantes aos humoristas.
Pacífico ou pacifista ele não é, nunca foi, nunca será. Conseguiu articular algum entendimento entre os lados porque é o homem que aperta dos botões do arsenal mais poderoso do mundo, e porque não gosta quando nenhum dos lados em uma disputa é o seu. Se ele não está ganhando alguma coisa, ninguém ganhará nada.
O que é muitíssimo diferente da figura – essa sim: heroica, pacifista, corajosa – de María Corina Machado.
Quando o comitê anunciou que a líder da oposição à ditadura de Nicolás Maduro vencera o Nobel da Paz deste, por sua militância pela democracia na Venezuela, eu não ri, porque não era piada, mas sorri com gosto, porque é merecido.
De acordo com o anúncio, a láurea foi concedida pelo seu “trabalho incansável promovendo os direitos democráticos para o povo da Venezuela e pelo seu esforço em alcançar uma justa e pacífica transição da ditadura para a democracia”.
Os velhinhos não costumam acertar nessa categoria, mas desta vez, por milagre, foram precisos.
Primeiro, porque reconheceram, e forçaram o mundo a reconhecer, o sofrimento do povo venezuelano, que há mais de duas décadas vive sob um regime que empobrece o país, suprime as liberdades, viola os direitos, asfixia e censura a imprensa, prende e executa opositores, suspende a ordem constitucional – com tudo isso se vende para a intelligentsia brasileira e latino-americana como um experimento socialista que deu certo. Bom, deu certo mesmo, se é que me entendem.
Segundo, porque lançaram luz, e forçaram o mundo a perceber, a hipocrisia que junta no mesmo saco Lula, Trump e Putin. Lula não gostou do prêmio porque Maduro é um velho colega com quem prefere não se indispor. Trump não gostou do prêmio porque é vaidoso e queria ser o premiado. Putin não gostou do prêmio porque é Putin. Nenhum dos três compreende a coragem sem medalha, o idealismo sem lucro, o patriotismo sem exército.
María, como tantas Marias, compreende.
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Comentários (2)
Roberval
11.10.2025 21:19Trump merece! Está lutando pela Paz! Óbvio que muitos odeiam esta ideia. Se fazem do "bem" espalhando o Ódio.
Marian
10.10.2025 18:32Pois penso diferente, acho que Trump merece sim e falo sério. Ele merece também o crédito e se paz irá durar ou não, aí é outra história.