Márcio Coimbra na Crusoé: O novo eixo do autoritarismo global
Pela primeira vez, Moscou concede a Pequim acesso a tecnologias que eram tratadas como ativos estratégicos de segurança nacional
As revelações recentes sobre a cooperação militar entre Rússia e China acenderam um alerta em capitais do Ocidente.
Longe de ser um movimento circunstancial, essa aproximação evidencia uma mudança estrutural na dinâmica do poder global.
Um dossiê de 800 páginas, analisado pelo Royal United Services Institute (RUSI), em Londres, detalha como Moscou tem auxiliado Pequim na preparação para uma eventual ofensiva contra Taiwan — ponto nevrálgico da estabilidade asiática e símbolo da resiliência democrática na região.
Os documentos, datados de 2023, registram contratos de fornecimento de veículos anfíbios, sistemas antitanque, transporte aéreo de tropas e programas de treinamento para paraquedistas chineses.
Mais relevante ainda é a transferência de tecnologia militar sensível, permitindo que a China produza internamente parte desses equipamentos.
Esse movimento marca uma inflexão histórica: pela primeira vez, Moscou concede a Pequim acesso a tecnologias que antes eram tratadas como ativos estratégicos de segurança nacional.
Durante décadas, a Rússia manteve uma postura ambivalente em relação à China — simultaneamente parceira e potencial rival.
O temor de espionagem industrial e de dependência tecnológica limitava qualquer cooperação mais profunda.
No entanto, o prolongamento da guerra na Ucrânia e o isolamento diplomático imposto pelas sanções ocidentais alteraram o cálculo do Kremlin.
Hoje, Moscou vê na ascensão chinesa uma oportunidade de reequilibrar o sistema internacional e enfraquecer a hegemonia euro-americana.
Trata-se de um pragmatismo geopolítico guiado pela necessidade: sem acesso aos mercados e tecnologias do Ocidente, a Rússia volta-se à Ásia, oferecendo armas e know-how em troca de apoio econômico e político.
Essa reconfiguração tem implicações que vão além do eixo Moscou-Pequim. Ela aponta para um processo de contestação mais amplo à ordem liberal internacional construída após 1945, baseada em regras multilaterais, respeito à soberania e primazia do direito internacional.
Rússia e China compartilham uma visão revisionista, segundo a qual o sistema atual reflete interesses ocidentais e restringe sua autonomia.
Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim…
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