Os segredos que o oceano sussurra e ninguém consegue decifrar
Hidrofones captam sons a 11.000 metros de profundidade
Nas profundezas abissais do oceano, há sons tão estranhos que desafiam entendimento — ondas sonoras que surgem sem fonte visível, ruídos metálicos, lamentos ou pulsações, que despertam fascínio científico. Este texto vai explorar as teorias atuais, os exemplos mais notórios, como cientistas identificam sons do abismo, implicações para o Brasil, e o que descobertas recentes têm mostrado.
Quais são os exemplos famosos do som misterioso do fundo do oceano?
Um dos casos mais estudados é o dos sons chamados “biotwangs“, captados na Fossa das Marianas entre 2014 e 2015. Eles duram cerca de 2,5 a 3,5 segundos, variando de gemidos ou moans de baixa frequência (38 Hz) até ruídos metálicos ou agudos próximos de 8.000 Hz. A origem foi misteriosa por anos, até que estudos recentes apontaram para suas origem em chamadas de baleias Bryde.
Outro exemplo é o som “Bio-Duck“, descoberto nas águas antárticas e próximo da Austrália desde a década de 1960, com pulsações repetitivas, que soam como um “quack” subaquático. Sua origem também permaneceu indefinida por muito tempo, até que evidências indicam que são produzidos por baleias minke antárticas.
O que são os “biotwangs” e como foi sua recente identificação?
Os biotwangs foram gravados com instrumentos chamados de “passive acoustic ocean gliders” — robôs submersíveis que coletam sinais acústicos no oceano profundo. Esses sons eram estranhos porque começavam com um gemido de baixa frequência, típico de baleias de barbatana, e terminavam com parte metálica de alta frequência, incomum para chamadas reconhecidas.
Em 2024, um estudo atribuiu os biotwangs às baleias Bryde (Balaenoptera edeni) usando aprendizado de máquina para filtrar gravações acústicas extensas. A confirmação não é ainda perfeita — há variabilidade no som, sazonalidade e distribuição geográfica — mas é a hipótese com mais respaldo até agora.

Quais outras hipóteses existem além de baleias para sons abissais?
Além de comunicação entre cetáceos, cientistas consideraram outras possíveis origens para sons profundos misteriosos do fundo do oceano: atividade geológica (movimento de placas tectônicas, tremores submarinos, ice-quakes ou impactos de icebergues), fenômenos acústicos por bolhas ou colisões de gelo, e até interferência humana ou ruído de equipamento.
Por exemplo, o som “Julia“, gravado em 1999, era inicialmente inexplicável, mas depois foi atribuído a icebergues encalhados ou rangendo no fundo do mar próximo à Antártica. Esse tipo de explicação geofísica mostra que nem todo som estranho é biológico.
Quais técnicas modernas são usadas para identificação de sons misteriosos?
Para identificar sons como os biotwangs ou Bio-Duck, pesquisadores usam hidrofones (microfones subaquáticos), arrays acústicos distribuídos, gravações passivas de longo prazo, e algoritmos de inteligência artificial e aprendizado de máquina para classificar padrões de frequência, duração, repetição e localização geográfica.
Essas ferramentas modernas permitiram associar sons misteriosos a espécies já conhecidas ou processos naturais antes invisíveis. Além disso, correlações ambientais — como temperatura da água, correntes oceânicas, presença de alimento, fenômenos climáticos (El Niño/La Niña) — também são analisadas para ver se influenciam quando e onde esses sons aparecem.
Qual é o impacto para o Brasil e quais são as possibilidades de estudos locais?
O Brasil tem uma extensa zona costeira e acesso ao oceano profundo no Atlântico, o que sugere potencial para que fenômenos acústicos subaquáticos misteriosos também ocorram em águas brasileiras — talvez ainda não detectados por falta de pesquisa específica ou de equipamentos acústicos apropriados.
Investir em infraestrutura de monitoramento acústico marinho, com hidrofones de longo prazo e colaboração internacional, pode permitir que o Brasil identifique seus próprios sons enigmáticos do mar. Isso poderia gerar avanços em biologia marinha, conservação de cetáceos, mitigação de ruído submarino e até turismo científico.
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