Roberto Ellery na Crusoé: Tango de uma nota só
O Banco Central argentino deveria considerar aumentar os juros. Taxas mais altas atrairiam dólares, valorizando o peso e ajudando a conter a inflação
Como no Samba de uma nota só, de João Gilberto, Brasil e Argentina parecem tocar uma única nota para buscar estabilidade macroeconômica.
No Brasil, o samba acelera com juros altos. Na Argentina de Javier Milei, o tango aposta no ajuste fiscal.
Apesar dos estilos distintos, ambos enfrentam o desafio de equilibrar crescimento e estabilidade sem perder o compasso.
No Brasil, o Plano Real, que domou a hiperinflação nos anos 1990, foi criticado por depender de juros altos e não dar a devida atenção ao controle fiscal.
Paulo Guedes, ministro da Economia de Jair Bolsonaro, pretendeu mudar isso com uma estratégia de juros baixos e ajuste fiscal rigoroso.
Em 2019, a reforma da previdência e o Plano Mais Brasil, com medidas para conter gastos, avançaram nesse sentido.
A pandemia de 2020, porém, frustrou o plano, exigindo elevação de despesas para mitigar os efeitos da Covid-19.
Em 2022, o governo entregou um superávit primário, mas os juros baixos não estavam mais no radar.
A queda da Selic começou em julho de 2019 e chegou em um mínimo histórico de 2% em 2020, mas a pressão inflacionária e a desvalorização do real forçaram aumentos a partir de 2021.
No fim do governo Bolsonaro, a taxa atingiu 13,75%. O plano de Guedes não vingou – teria funcionado sem a pandemia?
Não creio, os custos políticos dos cortes gastos são muito altos. Cortar gastos gera descontentamento, enquanto obras e programas sociais rendem votos.
É certo que juros altos também têm custos. Dificultam investimentos, reduzem consumo e valorizam o câmbio, o que pode ser um problema para Argentina.
Mas os custos políticos dos juros altos podem ser menores do que de cortes drásticos de gastos.
Talvez não seja coincidência que Fernando Henrique e Lula, ambos reeleitos, tenham preferido juros altos a ajustes fiscais drásticos.
Na Argentina, Javier Milei, eleito em 2023 com uma motosserra como símbolo de cortes, atacou a hiperinflação com um ajuste fiscal radical.
A inflação, que atingiu 211% em 2023, caiu para aproximadamente 118% em 2024, com a taxa mensal em 2,7% em dezembro.
Na política monetária, Milei promoveu cortes na taxa de juros, de 133% no fim de 2023 para 32% em 2024 e 29% em 2025, a menor desde 2020.
Em junho de 2025, o Banco Central argentino passou a focar no controle da quantidade de dinheiro (agregados monetários), abandonando…
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