O preço de ignorar os fatos
Atacar o mensageiro funcionou?
Um dos efeitos do populismo, com a divisão da sociedade em “nós contra eles”, é que as pessoas identificadas com cada lado abandonam os critérios da verdade e da mentira, do certo e do errado.
Ser vantajoso ou prejudicial para o grupo, ou para o adversário, passa a ser o único critério utilizado na avaliação de ações e conteúdos.
Se é verdade, mas prejudicial ao grupo, então é “mentira”. Se é mentira, mas vantajoso ao grupo, então é “verdade”.
Se é certo, mas prejudicial ao grupo, então é “errado”. Se é errado, mas vantajoso ao grupo, então é “certo”.
Do mesmo modo, se é verdade, mas vantajoso ao adversário, é “mentira”. Se é mentira, mas prejudicial ao adversário, é “verdade”.
Se é certo, mas vantajoso ao adversário, é “errado”. Se é errado, mas prejudicial ao adversário, é “certo”.
Propagandistas
A avaliação, portanto, não é expressada nem admitida por propagandistas e massas de manobra sob os termos de vantagem ou prejuízo, mas camuflada nos demais critérios: de “verdade”, “mentira”, “certo” e “errado”, bem como suas mais diversas variações, com frequência acompanhadas de ataques.
Chamo de propagandistas os ativistas que, geralmente, fazem essa manipulação de modo consciente, para favorecer o grupo e prejudicar o adversário. Chamo de massas de manobra os ativistas que são manipulados por propagandistas e acreditam em avaliações falseadas, sem atinar que elas variam somente conforme a conveniência grupal.
Ativistas lulistas não dizem:
“O que você publicou sobre os blogs sujos e MAVs é verdade, mas a exposição das condutas e dos métodos ocultos desses propagandistas é prejudicial ao meu grupo político-ideológico, que depende da manipulação dissimulada do debate público para emplacar suas narrativas.”
Igualmente, ativistas bolsonaristas não dizem:
“O que você publicou sobre os blogueiros de crachá é verdade, mas a exposição das condutas e dos métodos ocultos desses propagandistas é prejudicial ao meu grupo político-ideológico, que depende da manipulação dissimulada do debate público para emplacar suas narrativas.”
Embora eu, Felipe, tenha vencido — e não foi no STF — todos os processos movidos contra mim em ambos os casos, sem que os autores das ações tenham comprovado qualquer ofensa mentirosa em minhas publicações, os ativistas lulistas passaram a me associar ao velho tucanato e depois ao bolsonarismo, enquanto os ativistas bolsonaristas passaram a me associar ao lulismo e depois ao alexandrismo.
Esta última, sem dúvida, foi a mais cínica e histérica das associações, já que até hoje busca imputar à minha matéria de 11 de outubro de 2019 o motivo de criação do inquérito das fake news, originado 211 dias antes, em 14 de março de 2019, por motivos notadamente diversos — como retaliar a Lava Jato e a Receita Federal, e censurar a imprensa, sendo Crusoé a primeira vítima —, todos eles criticados por mim desde a raiz, como se pode ler na cronologia que conta e documenta sua verdadeira história.
Falsas narrativas
A primeira operação ordenada por Alexandre de Moraes contra bolsonaristas só ocorreu 228 dias depois, em 27 maio de 2020. Ela atingiu empresários que falavam de golpe em grupo de WhatsApp, foi criticada por mim na TV e em artigos, e nada tinha a ver com minha matéria, assim como tampouco tiveram todas as ordens posteriores de censura e prisão — tanto que os blogueiros jamais comprovam suas falsas narrativas, cronologias e conexões com a exibição de decisões oficiais do ministro do STF.
Ainda que qualquer elemento verdadeiro de uma publicação jornalística seja utilizado para fins eleitorais, políticos ou judiciais, nenhum jornalista tem qualquer responsabilidade sobre o modo como eleitores, parlamentares ou juízes exploram suas revelações sobre condutas alheias. Quem desiste de uma publicação para evitar sua eventual exploração indevida não é jornalista, cujo trabalho está sempre sujeito a essa possibilidade, mas ativista, fazendo cálculos sobre possíveis vantagens e prejuízos grupais. Como ativistas cobram do resto do povo que aja como eles, naturalmente atacam quem prioriza a exposição dos fatos, em detrimento da omissão conveniente.
No caso específico, os propagandistas da família Bolsonaro precisavam não só culpar os outros pelas suas próprias ações alopradas, mas também acobertar o fato objetivo, documentado, testemunhado e depois até confessado de que os Bolsonaro sabotaram a criação da CPI da Lava Toga no Senado, voltada contra a abertura do inquérito das fake news e defendida por mim em 2019 como o meio constitucional de conter a escalada autoritária do STF na raiz, como se pode ver em programa de rádio da época.
Na época, a família do então presidente buscava blindar Dias Toffoli e Gilmar Mendes contra apurações, a fim de que blindassem Flávio contra investigações de peculato, como acabou acontecendo. Os Bolsonaro contribuíram, portanto, para a concentração de poder de Moraes, escolhido sem sorteio por Toffoli como relator.
Para quem foi eleito com discurso antissistema, não pegava bem proteger ministros do STF que censuravam Crusoé (por revelar o codinome de Toffoli na Odebrecht) e retaliavam a Lava Jato e a Receita, de modo que o bolsonarismo foi precisando atacar cada vez mais os “isentões” que expunham suas manipulações e hipocrisias, como se a conduta destes, e não dos Bolsonaro, estivesse ajudando o outro lado.
Todos deveríamos, na concepção dos ativistas, ajudar no acobertamento, rebaixando nossos critérios, corrompendo nossos valores e enganando o povo, para manter Bolsonaro no poder – mesmo que ele aloprasse na pandemia, mesmo que flertasse com um golpe de Estado.
Blogs sujos
Anos antes, claro, meu nome também entrou na lista dos blogs sujos petistas dos inimigos da pátria, que deveriam ser alvos da militância organizada na internet. O motivo era o mesmo: ter recusado o rebaixamento, a corrupção e a enganação, quando verdades inconvenientes sobre o lulismo precisavam ser expostas.
Atacar o mensageiro é o método populista de incutir em massas de manobra a aversão aos fatos que o grupo prefere esconder.
Como o tempo, a experiência e algumas condenações mostram, no entanto, a realidade jamais abafa os efeitos dos fatos no mundo real, nem o alto preço de ignorá-los tão resolutamente.
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Comentários (5)
Alice
29.09.2025 07:20É um alento , Felipe , poder contar com vc e suas brilhantes análises sempre imparciais , ao contrário do que se vê nos demais veículos de ( des) informação.
Cecilio C. Mikami
28.09.2025 11:02Hoje é 28/09, dia mundial do jornalismo / dia internacional do acesso universal à informação quero deixar aqui o meu respeito e o reconhecimento pelo trabalho de alta qualidade, sério, honesto e competente do Felipe e de toda a equipe do Antagonista / Crusoé. O trabalho permanente de sustentar a verdade dos fatos pode desagradar aqui e ali, um dia ou outro, mas não se pode negar que existe um norte, um rumo e um caminho sendo trilhado com os recursos que talvez não sejam fartos, e até por causa disso, muito bem aproveitados, bem assentados na construção de um jornalismo com raízes bem fincadas na essência do que deveria ser e infelizmente está se perdendo. Parabéns a todos.
Silvana
26.09.2025 15:16Sou assinante da Crusoé desde sempre e também isentona. Ao excelente Felipe deixo duas sugestões: adicionar um toque de humor aos programas na TV e YouTube, como nos tempos do Sabino. Outra coisa é abandonar definitivamente a expressão “eu, Felipe”, isso não é necessário e soa meio arrogante.
Eliane ☆
26.09.2025 14:55Eu acompanho o Felipe há muito tempo.Em nenhum momento me decepcionou.Eu ,Eliane, companhei cada momento em que o Felipe foi atacado. Fiquei em dúvida de quem era pior:lulistas ou bolsonaristas. Estou longe das redes sociais por não suportar mais essa militância fanática,insana,dos dois lados.Quando você vê manifestações defendendo pautas diferentes e a quantidade de pessoas participando,quase igual.A conclusão é que realmente o Brasil está polarizado. E eu continuo com o "rótulo" de isentona.Fiel à moralidade, honestidade.
Danilo Sampaio Flecha
26.09.2025 14:11Parabéns pela matéria, é um alívio saber que ainda há sensatez e integridade no jornalismo brasileiro.