Kamala Harris culpa Biden e líderes democratas pela derrota
Ex-vice divulga diário da corrida de 2024, relata desgaste com a Casa Branca, resistência de Obama em apoiar e cálculo eleitoral ao descartar Buttigieg para vice
Kamala Harris publicou nesta semana “107 Dias”, livro sobre sua participação na eleição presidencial americana de 2024.
Em formato de diário, a ex-vice-presidente atribui a derrota a decisões do presidente e de sua equipe, registra conversas com lideranças do partido e descreve como tentou reorganizar a disputa em prazo curto.
Logo após o anúncio de Biden, Harris relata ter ligado a dirigentes democratas para medir apoios.
Segundo ela, Barack Obama sinalizou simpatia, mas disse que não “poria o dedo na balança” naquele momento.
Hillary Clinton se ofereceu para integrar um conselho de estratégia.
Nancy Pelosi defendeu um processo com disputa interna. Já o governador Gavin Newsom, anota a autora, prometeu retornar a ligação e não voltou.
Harris dedica largos trechos ao relacionamento com Biden e seu entorno.
Ela classifica a decisão do presidente de buscar a reeleição aos 81 anos como temerária e descreve episódios que, na sua visão, expuseram a idade do mandatário.
Ao mesmo tempo, escreve que ele “foi capaz de exercer as funções” e nega a existência de um plano para esconder fragilidades.
A autora afirma que a equipe de Biden a isolou em tarefas ingratas e não defendeu seu trabalho; em um desabafo citado no livro, Doug Emhoff, marido de Harris, acusa assessores do presidente de “esconder” a vice por quatro anos e só buscá-la quando precisavam mostrar força.
O diário descreve também contratempos após a saída de Biden.
Harris conta que o presidente, em conversa com eleitores, apareceu com um boné vermelho associado ao slogan de Donald Trump.
Narra ainda que recebeu uma ligação incômoda de Biden pouco antes de seu debate com o republicano, o que teria ampliado tensões nos bastidores.
Sobre a formação de chapa, Harris reforça a pauta identitária e o discurso woke que pode ter sido a real causa de sua derrota, o que ela até o momento não admite.
Ela registra que Pete Buttigieg, secretário dos Transportes e gay assumido, seria seu vice ideal, mas concluiu que pedir ao país que aceitasse uma mulher, negra, casada com um judeu e ainda um vice gay seria “arriscado demais” diante do cenário eleitoral.
A ex-vice também revê a própria estratégia. Ao lembrar entrevista 28 dias antes da eleição, quando disse que não faria nada diferente de Biden, ela se cobra por não ter se diferenciado do presidente.
Escreve que a lealdade ao chefe, mesmo após atritos, pesou na escolha de manter alinhamento público até o fim.
No livro, ela também aborda imigração, direitos de pessoas trans e a guerra em Gaza.
A autora reconhece que parte do público percebeu a alta de entradas na fronteira como “invasão”, mas rejeita negar o problema.
Defende posições pró-direitos trans que sustentou no governo e afirma ter pedido a Biden que demonstrasse a mesma empatia com civis palestinos que manifestava em relação à Ucrânia, indicando divergência com a Casa Branca nesse tema.
O livro inclui passagens de vida pessoal, como o aniversário de 60 anos, 16 dias antes da eleição.
Harris relata frustração com a organização da data por Emhoff e admite que o episódio a abalou no meio da agenda eleitoral. Fotos de bilhetes manuscritos deixados por ele nos dias seguintes aparecem na obra.
No posfácio, Harris sugere uma mudança de rota.
Escreve que “trabalhar dentro do sistema, sozinho, não está sendo suficiente” e afirma que pretende trocar a “pompa do gabinete cerimonial” por viagens para “estar com o povo”.
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