Tylenol causa autismo? Trump e Kennedy Jr. dizem que sim

28.09.2026

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Gustavo Nogy
7 minutos de leitura 23.09.2025 18:42 comentários
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Tylenol causa autismo? Trump e Kennedy Jr. dizem que sim

Presidente e Secretário de Saúde dos EUA promovem narrativa sem base científica sobre o uso de acetaminofeno durante a gestação, contrariando consenso médico e decisões judiciais

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Gustavo Nogy
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Tylenol causa autismo? Trump e Kennedy Jr. dizem que sim
Foto: Oficial da Casa Branca por Daniel Torok

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, juntamente com Robert F. Kennedy Jr., Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, e Mehmet Oz, administrador do Medicaid, veicularam publicamente a alegação de que o consumo de Tylenol (acetaminofeno) durante a gravidez seria a causa do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Essa afirmação, que carece de qualquer comprovação científica sólida, foi anunciada como parte de uma agenda política que busca encontrar um bode expiatório simples para o autismo.

O anúncio foi tratado por Trump como “um dos maiores da história do país”. Decisões judiciais importantes e estudos foram divulgados entre 2023 e 2025, promovendo uma lógica que patologiza as deficiências. A tese se apoia em estudos de baixa qualidade metodológica e é rejeitada pelo consenso clínico e por tribunais federais norte-americanos.

O consenso científico e a falha da causalidade

A retórica política em torno do acetaminofeno desconsidera a distinção fundamental entre associação e causalidade. Ver dois eventos acontecendo simultaneamente não implica que um seja o motivador do outro, como no exemplo de vendas de limonada e ataques de tubarão. O que está sendo promovido por líderes políticos não corresponde ao rigor científico; é classificado como “espetáculo”.

Um estudo populacional de grande escala realizado na Suécia e publicado na revista JAMA em 2024 analisou 2,48 milhões de crianças. Este estudo identificou uma diferença absoluta de risco para autismo de apenas 0,09% aos dez anos entre as crianças expostas e não expostas ao acetaminofeno. Após ajustes estatísticos e comparações internas às famílias, este efeito residual foi ainda mais enfraquecido.

A conclusão do estudo é que houve apenas uma associação observacional, e não uma relação de causa e efeito. Embora existam sinais de que algumas variáveis possam coexistir em recortes muito específicos, isso está distante de provar a causalidade biológica, o que é insuficiente para basear políticas públicas.

As entidades médicas especializadas em gestação e risco fetal não endossam essa campanha política. A Society for Maternal-Fetal Medicine reiterou em setembro de 2025 que o acetaminofeno continua sendo um tratamento adequado para febre e dor durante a gravidez. A febre sem tratamento, por outro lado, acarreta riscos reais conhecidos.

As sociedades clínicas mantêm a recomendação de uso prudente do medicamento quando clinicamente indicado. A American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) também reafirmou que não há evidência clara de vínculo direto e que o acetaminofeno está entre as poucas opções seguras para a dor.

No âmbito legal, a alegação de causalidade não prosperou nos tribunais dos EUA. A juíza federal Denise Cote, responsável pelo caso multidistrital sobre o Tylenol, rejeitou sucessivamente as testemunhas de “causalidade geral” dos autores em 2023 e 2024, citando falhas metodológicas.

Em agosto de 2024, a juíza também barrou a última testemunha remanescente relacionada ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A decisão judicial é clara ao indicar que não existe fundamento científico robusto que corrobore a alegação de que o acetaminofeno provoque autismo.

O veredito atual da ciência aponta para a incerteza, com alguns indícios de associação em certas análises, mas sem causalidade estabelecida. Uma revisão sistemática de 2025 em Environmental Health encontrou “evidência de associação”. Contudo, os próprios autores reconheceram que os estudos são divergentes, há controvérsias sobre fatores externos que podem confundir os resultados, e o efeito quase desaparece quando a análise é realizada comparando irmãos dentro da mesma família.

A retórica política e o risco social

A persistência do boato, mesmo após desmentidos científicos e judiciais, é explicada pela utilização de estudos metodologicamente frágeis por parte de grupos políticos. Artigos com vieses graves, como o uso de questionários online em que os pais relatam retrospectivamente o uso do medicamento e os sinais de autismo, produzem correlações inconsistentes.

A memória dos pais pode falhar e as respostas podem ser imprecisas, além de os grupos que respondem aos questionários não representarem a totalidade das famílias. Outros estudos, como as análises ecológicas que utilizam bancos de dados secundários, recorrem a sistemas de notificação espontânea, como o VAERS, que registra apenas relatos voluntários, repletos de ruídos e sem confirmação independente.

Este tipo de raciocínio é usado quando se observam duas curvas crescendo simultaneamente e se conclui que uma é a causa da outra, sem que haja um mecanismo biológico plausível para sustentar a hipótese. É nesse terreno que distorções estatísticas, como o viés de reporte e múltiplos testes, criam “miragens em vez de fatos”.

A insistência na tese do Tylenol como causador do autismo não é apenas um erro científico, mas reintroduz no discurso contemporâneo uma perspectiva eugenista. Essa postura trata pessoas com deficiência como uma tragédia a ser evitada, reduzindo o autismo a um erro biológico que deve ser combatido. Autistas são, dessa forma, desumanizados e relegados à condição de peso social, como sugeriu Robert F. Kennedy Jr..

Kennedy Jr. afirmou que pessoas autistas são “pessoas que nunca pagarão impostos, nunca terão um emprego, nunca jogarão beisebol, nunca escreverão um poema, nunca sairão em um encontro”. Essa linguagem desconsidera a dignidade das pessoas autistas e prepara o caminho para políticas que buscam o apagamento de quem é considerado “diferente”.

A veiculação de um anúncio presidencial dessa natureza não protege as famílias, mas amplifica o dano. Primeiramente, instala o medo em gestantes que precisam tratar quadros de febre e dor. A febre alta durante a gravidez pode, de fato, elevar riscos conhecidos, e a orientação médica padrão tem sido o uso parcimonioso do acetaminofeno.

O pânico semeado pelo governo pode levar pacientes a não tratar a febre ou a procurar analgésicos com um perfil de risco menos seguro. Em segundo lugar, a busca por um “culpado” para o autismo estimula a culpa materna e divisões em comunidades que militam pela inclusão.

A pauta política distorce a realidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autismo não é uma doença e não exige ‘cura”. O aumento de diagnósticos observado não representa uma “epidemia” nem uma “crise de saúde pública”. Trata-se do resultado da democratização diagnóstica, do agrupamento de condições antes separadas no DSM, e do maior reconhecimento de grupos historicamente ignorados, como mulheres e pessoas negras autistas.

O que se faz necessário são políticas públicas que promovam emancipação, acessibilidade e educação inclusiva, e não um discurso que patologiza a existência. Essa mesma lógica de transformar o autismo em um problema a ser corrigido, vendendo promessas de “cura” e “normalização”, já ecoa no Brasil, importada por setores ligados ao lobby de clínicas.

A ciência de alta qualidade sinaliza que, caso exista alguma minúscula e inconsistente coexistência do acetaminofeno e o risco de TEA, ela é muito sensível ao controle de fatores confundidores e não significa causalidade. A preferência do governo em sustentar uma aposta em um bode expiatório, empurrada por teses desacreditadas, contraria a honestidade da pesquisa e os cuidados clínicos.

*

Nota: Ergon Cugler e Arthur Ataide Ferreira Garcia, pesquisadores e autores do artigo original no qual este se fundamenta – “Afirmação de Trump de que Tylenol causa autismo é nova mentira estimulada por Robert F. Kennedy Jr” – são, eles próprios, autistas.

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