“Ira justa não pode virar ódio”, diz apologista cristão sobre reações à morte de Charlie Kirk
Apologista e influenciador americano rebate cristãos que defendem ódio e afirma que devemos amar até os piores inimigos
O apologista católico norte-americano Trent Horn analisou em seu popular podcast o episódio “Os cristãos podem odiar pessoas?”. Ele respondeu a discursos recentes sobre “ódio cristão” e afirmou que odiar pessoas é incompatível com a vida cristã.
A reflexão surgiu após o assassinato de Charlie Kirk. Na cerimônia em sua memória, Donald Trump declarou que odiava seus adversários. Para Horn, essa reação traduz uma tentação comum: transformar a justa indignação em desejo de destruição do outro.
O pastor protestante Joel Webbon foi citado como exemplo dessa distorção.
Um dia depois do ataque, ele publicou o versículo “Odeio com ódio perfeito os que te odeiam” e defendeu que “os cristãos precisam aprender a odiar de novo”. Em seguida, escreveu: “Make America hate again”.
Segundo Horn, a Escritura autoriza odiar obras más, mas nunca odiar pessoas.
Ele recorreu a Provérbios, que lista sete ações que o Senhor abomina, para mostrar que a condenação bíblica sempre recai sobre atos.
Citações históricas reforçam a crítica.
O papa Pio XII advertiu em 1946 que “talvez o maior pecado do mundo hoje seja perder o sentido do pecado”. O venerável Fulton Sheen, em 1964, denunciou a “falsa compaixão” que protege o criminoso e esquece a vítima.
Esse raciocínio, diz Horn, ajuda a entender decisões de juízes que libertam criminosos reincidentes e violentos em nome de uma empatia distorcida.
O risco é inverter a compaixão e, em nome dela, expor inocentes a novos crimes.
Mas a ira justa também pode ser manipulada por quem deseja vingança.
O escritor Brandon Ambrosino, professor da Universidade Villanova, reconheceu esse dilema. Após declarar que não queria Trump no paraíso, confessou: “Preciso me arrepender de esperar que Deus odeie quem eu quero que ele odeie”.
Para Horn, textos duros do Antigo Testamento devem ser lidos como etapas rumo à lei de Cristo. Mesmo no Êxodo 23 há um pedido de ajuda até a um animal do inimigo, antecipando o mandamento de amar os inimigos.
No sermão da montanha, Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Para Horn, essa é a virada definitiva: não basta odiar o mal, é preciso desejar o bem até para quem nos fere.
Ele explicou passagens polêmicas como Lucas 14,26, onde “odiar” pais e filhos significa apenas “amar menos”. No contexto da língua hebraica antiga, não se trata de rancor, mas de prioridade absoluta ao amor de Deus.
Trump, em seu livro Think Big and Kick Ass, exaltou a vingança como prazer pessoal. Já a viúva de Charlie Kirk, ao perdoar o assassino do marido, ofereceu, segundo Horn, o exemplo mais fiel ao cristianismo.
O ódio é um pecado contra a caridade
O Catecismo da Igreja Católica trata do ódio como um pecado grave contra a caridade.
No parágrafo 2303, afirma: “O ódio voluntário contra uma pessoa é contrário à caridade. O ódio ao próximo é pecado quando deliberadamente se deseja a ele um mal. O ódio ao próximo é pecado mortal quando se lhe deseja um grave mal deliberadamente.”
Esse ensinamento vai na linha do que os padres e doutores da Igreja sempre defenderam: é legítimo odiar o mal e o pecado, mas nunca a pessoa.
Santo Agostinho formulou a máxima que atravessou séculos: “Odiar o pecado , amar o pecador”.
Para ele, o coração cristão deve rejeitar o pecado, mas ao mesmo tempo estender misericórdia ao pecador, porque todos estão sujeitos à queda.
São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q. 34), distingue entre a “ira justa”, que é a reação contra o mal cometido, e o ódio pessoal, que considera desordenado e sempre contrário ao amor ao próximo.
O santo reconhece que a indignação contra a injustiça pode ser virtude, mas insiste que o cristão deve sempre buscar o bem último da pessoa, que é a salvação.
São João Crisóstomo, ao comentar o Evangelho de Mateus, afirma que amar os inimigos não significa tolerar a injustiça, mas agir sem desejo de vingança, transformando a dor em ocasião de testemunho.
Já São Gregório Magno, em suas Homilias sobre Ezequiel, lembra que a disciplina e até o castigo podem ser atos de amor, desde que visem corrigir e conduzir à conversão.
A tradição católica, portanto, rejeita a ideia de que o ódio possa ser virtude.
O Catecismo, os Padres e os doutores da Igreja convergem num mesmo ponto: cristãos são chamados a odiar o mal, mas amar o pior pecador, porque nenhum ser humano está fora do alcance da graça divina.
O perdão não anula a justiça
Penas podem ser atos de amor, desde que visem reparar danos e corrigir o culpado, e não alimentar a satisfação mórbida com a queda do outro.
A síntese vem de Romanos 12,21: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem.”
Cristãos, conclui Horn, podem e devem combater crimes e responsabilizar culpados, mas nunca odiar qualquer ser humano criado à imagem de Deus.
O dilema do perdão a um carniceiro nazista
Hans Frank, conhecido como “o carniceiro da Polônia”, foi um dos principais líderes nazistas julgados em Nuremberg. Nascido em família católica na Baviera, afastou-se da fé durante o regime, mas na prisão voltou a procurar a Igreja.
Recebeu os sacramentos de confissão e eucaristia do jesuíta Sixtus O’Connor, capelão da prisão. Pouco antes de ser enforcado, em 16 de outubro de 1946, declarou: “Milhões de pessoas tiveram de morrer por mim, e agora eu vou morrer por eles. Que Deus me tenha em sua misericórdia.”
Aos olhos humanos, é quase impossível aceitar que alguém tão profundamente envolvido no mal pudesse alcançar perdão.
No entanto, a fé cristã sustenta que nenhum pecador está fora do alcance da misericórdia divina, pois “para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível” (Mateus 19,26).
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