Cientistas e filósofos debatem os limites da consciência e da cognição

13.03.2026

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Cientistas e filósofos debatem os limites da consciência e da cognição

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 19.09.2025 17:15 comentários
Cultura

Cientistas e filósofos debatem os limites da consciência e da cognição

Pesquisadores divergem sobre os marcos evolutivos que distinguem o aprendizado simples da capacidade de pensamento complexo e da auto-percepção

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Gustavo Nogy
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Cientistas e filósofos debatem os limites da consciência e da cognição

Especialistas em neurociência e filosofia da mente, como o neurocientista Joseph LeDoux, as biólogas Simona Ginsburg e Eva Jablonka, e o filósofo Daniel Dennett, conversaram sobre as origens da cognição e da consciência em um encontro sobre Consciência Natural nas Ilhas Galápagos. A discussão gira em torno das distinções entre o aprendizado básico e o pensamento sofisticado, experimentando diferentes estruturas teóricas para delimitar esses conceitos.

Definindo o indefinido: do aprendizado simples à simulação mental

A controvérsia científica sobre a gênese da cognição e da consciência revela distintas perspectivas.

Joseph LeDoux adota uma definição restrita de cognição, atribuindo-a principalmente a mamíferos e algumas aves que podem construir e empregar modelos internos do mundo. Para ele, esses modelos servem para guiar ações flexíveis e orientadas a objetivos. O limiar para a consciência, em sua abordagem, é ainda mais elevado, surgindo quando os modelos internos são reinterpretados em circuitos pré-frontais, possibilitando uma autoconsciência narrativa.

Em contraste, Simona Ginsburg e Eva Jablonka propõem uma estrutura mais abrangente, situando a cognição em um estágio evolutivo anterior e em uma variedade maior de organismos. Elas consideram todos os sistemas de aprendizado como cognitivos. Para Ginsburg e Jablonka, a cognição é a capacidade de aprender com a experiência de forma sensível a valores, discernindo o que é benéfico ou prejudicial e moldando o comportamento de acordo. O aprendizado, em sua visão, é o motor evolutivo da cognição.

As pesquisadoras identificam cinco transições evolutivas principais que expandiram progressivamente a capacidade dos animais de representar, lembrar e agir. Essas etapas incluem o aprendizado não neural, como em bactérias e esponjas, e o aprendizado neural, observado em cnidários (animais aquáticos, como a anémona-do-mar). Em seguida, vêm o aprendizado associativo limitado (LAL), presente em vermes e insetos, e o aprendizado associativo ilimitado (UAL). O UAL, que surgiu há aproximadamente 540 milhões de anos, durante a explosão cambriana, é considerado o marco da consciência mínima. Ele depende de representações mentais integradas e permite capacidades complexas, como a discriminação de padrões novos e o aprendizado com intervalos de tempo. Por fim, a capacidade de imaginação e cultura simbólica, especialmente em mamíferos e humanos, representa os estágios mais avançados.

A escada evolutiva da mente e as implicações para a IA

Outra forma de compreender a evolução cognitiva é aquela que o filósofo Daniel Dennett chamou de “torre de gerar e testar”. Esse modelo descreve uma progressão de estratégias cognitivas moldadas pela evolução. A cada “andar” da torre, organismos produzem variantes (genéticas, comportamentais ou mentais) que são então testadas.

O modelo começa com “criaturas darwinianas”, que se adaptam apenas por evolução genética, sem aprendizado durante a vida. Seguem-se as “criaturas skinnerianas”, que aprendem por tentativa e erro, ajustando o comportamento com base nos resultados. As “criaturas popperianas” podem simular ações internamente e prever resultados antes de agir, minimizando riscos. No topo, as “criaturas gregorianas” expandem a cognição com linguagem, ferramentas e cultura, possibilitando o pensamento abstrato e o conhecimento cumulativo.

O framework de Dennett ajuda a situar as definições divergentes de LeDoux e de Ginsburg & Jablonka.

LeDoux reserva o termo “cognição” para os níveis superiores da torre, como as criaturas popperianas e gregorianas, que utilizam modelos internos para simular resultados e controlar o comportamento. A plena consciência, para ele, se alinha ao nível gregoriano, onde a linguagem e as narrativas simbólicas são essenciais.

Por outro lado, Ginsburg e Jablonka estendem a cognição por toda a torre, incluindo até o aprendizado não neural mais básico. Em sua perspectiva, a consciência mínima surge no estágio UAL, um período de transição entre os níveis skinneriano e popperiano.

A demarcação dos limites da cognição e da consciência tem consequências significativas para a inteligência artificial (IA). A visão mais restritiva de LeDoux poderia excluir os sistemas de IA atuais de serem considerados cognitivos. Já a estrutura mais ampla de Ginsburg e Jablonka pode incluir algumas IAs como sistemas cognitivos, levantando questões sobre a possibilidade de sistemas artificiais alcançarem o UAL e a própria consciência. A compreensão dessas estruturas teóricas é fundamental não só para o design de IAs mais avançadas, mas também para o debate ético sobre como a sociedade deve interagir e tratar futuras inteligências artificiais.

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