“O homem mais musical do mundo”
Um dos maiores críticos musicais do mundo, o americano Ted Gioia, relembra a trajetória de Hermeto Pascoal e explica por que ele virou “O Bruxo”
O crítico americano Ted Gioia, um dos nomes mais influentes da crítica musical contemporânea, publicou “O homem mais musical do mundo” na newsletter The Honest Broker neste domingo, 14.
“Estou de luto pela perda de um dos meus heróis musicais.” Ele anuncia a morte de Hermeto Pascoal aos 89 anos, ocorrida neste sábado, 13.
“BBC falou em mago, o Guardian em feiticeiro e a ABC News em gênio maluco.” Gioia resume manchetes internacionais que reforçam a imagem de bruxaria sonora associada a Hermeto. A morte foi confirmada pela família em comunicado nas redes sociais.
“Na época, disse que ele era o homem mais musical do mundo.” Gioia sustenta que não era exagero. Para ele, Hermeto transformava qualquer objeto em música, sempre com alegria e surpresa.
“Uma cadeira é um instrumento. Uma mesa é um instrumento. Há tantos instrumentos.” A frase resume o método de Hermeto, que tratava ambiente e objetos como extensão do palco. A proposta era dissolver fronteiras entre som cotidiano e composição.
“Costumo dizer às pessoas que ele tocou com Miles Davis.” Gioia lembra a participação de Hermeto no álbum Live/Evil, gravado em 1970, como tecladista, baterista, compositor e assobiador. “Miles supostamente o chamou de o músico mais impressionante do mundo.” A parceria foi breve, mas decisiva.
“Quando o disco saiu, músicas que escrevi foram atribuídas a Davis.” Gioia relata que Hermeto entrou na Justiça para reaver créditos. O episódio não impediu que ele conseguisse contrato e lançasse Hermeto (também conhecido como Brazilian Adventure).
“Este álbum selvagem e imprevisível deve ter abalado os ouvintes.” Assim ele descreve Hermeto, que contrariava expectativas de bossa nova suave então associada ao Brasil nos EUA. O disco ampliou a reputação de Hermeto como artista que evitava o caminho previsível.
“Em Missa dos Escravos (1977), parecia prestes a conseguir isso.” Gioia lembra o lançamento pela Warner, com Ron Carter, Flora Purim e Airto Moreira. “Na faixa-título, gritos e acordes dissonantes viram algo estranhamente dançante.” O objetivo não era alcançar discos de ouro, mas abrir novos caminhos sonoros.
“Ele podia sentar ao piano para tocar uma valsa lenta… e de repente começava a gritar e falar com o teclado.” A cena ilustra a imprevisibilidade de Hermeto. Entre valsas, ruídos e fala, o show avançava sem reconhecer fronteiras de gênero.
“Houve aquela vez em que fez a banda inteira pular numa lagoa.” Gioia cita a gravação aquática que virou referência do uso de água como instrumento. O procedimento incorporava elementos naturais como parte do arranjo.
“Uns sapos coaxavam num dia chuvoso… o mestre pegou um piccolo.” Ele narra a gravação caseira de 1980 com Jovino Santos Neto, em que Hermeto dialoga com coaxos. O episódio mostra a escuta ambiental transformada em música.
“Em ‘Outono em Nova York’, ele se afasta do piano para solar na caneca de café.” A anedota reforça a ideia de que qualquer objeto servia à improvisação. O gesto traduz a “música total” buscada pelo brasileiro.
“Confira a transcrição de ‘Round Midnight’… parte de 14 aulas online de Richard Boukas.” Gioia destaca que a obra também resiste a análises formais. As harmonias e procedimentos revelam densidade teórica além do experimentalismo.
“Ele representa um modo de vida musical — nenhuma gravação dá mais que um pequeno gosto.” Para Gioia, a discografia não contém a amplitude da visão. A proposta era viver a música como filosofia, não como produto.
“Deixem outros exibirem Grammys e discos de ouro… ele nem reconhece as paredes.” O fechamento sublinha um legado avesso a prêmios. O contexto atual inclui a confirmação da morte do músico e homenagens públicas neste domingo, 14.
Quem é Ted Gioia
Americano, crítico e historiador de música, autor de The History of Jazz e Music: A Subversive History.
Ex-professor em Stanford, edita a newsletter The Honest Broker e pesquisa tradições populares e a economia da música no século 21.
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