Gustavo Nogy na Crusoé: Às vezes, a crítica também é literatura
Foi Shakespeare quem nos deu um vocabulário e uma gramática, para que pudéssemos ser o que hoje somos
Preciso de um papel, preciso de uma caneta, preciso anotar um código que há de expirar em quinze segundos.
Mexo bruscamente na pilha de livros à minha frente e derrubo um calhamaço com peso de paralelepípedo de Ouro Preto: Shakespeare, A Invenção do Humano, do crítico americano Harold Bloom, que morreu em 2019, aos 89.
Com ele, talvez tenha morrido o último suspiro da crítica literária engajada – esteticamente engajada, frise-se.
Mais do que uma teoria, para além de um conjunto de princípios, foi-se embora um elã. Um jeitão.
Bloom descreveu e denunciou, antes de todos, as mistificações nos departamentos de Letras que, envergonhados da própria vocação, por muitos considerada elitista e demasiado “ocidental”, aos poucos se transformaram em sucursais das reivindicações de classe, grupos ou gênero.
Negou a predominância de critérios étnicos, antropológicos e políticos na análise do objeto literário.
Inteligente, sabia que a obra não começa nem termina em si mesma, mas também que um romance não é crônica histórica, um poema não é panfleto ideológico. Acreditava na autonomia – não no autismo – da arte literária.
Por essas razões e algumas outras, foi amado e detestado em igual medida. Para muitos, não passava de um preconceituoso; para outros, um saudosista. Reducionismos que não davam conta da vasta obra que produziu incansavelmente, com paixão de verdadeiro criador.
Harold Bloom lia com voracidade e destacava nos poemas, nos contos, nos romances e nas peças o fenômeno propriamente estético e, por que não?, metafísico que neles estava latente ou explícito.
Interessado em cabala e gnosticismo (Jesus e Javé; Anjos Caídos), a seu modo trouxe de volta a mística e a religião ao ambiente árido da academia (e de fora dela).
Rejeitava as facilidades da literatura pop e desprezava as adaptações de clássicos (Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes), com a mesma fúria com que afirmava a prevalência de um cânone (O Cânone Ocidental; O Cânone Americano); de uma criteriologia (Como e Por Que Ler; A Anatomia da Influência); de uma concepção romântica da genialidade (Gênio).
Defendia tudo o que não é de bom-tom defender nestes nossos tempos em que os sentimentos paroquiais e as genuflexões…
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