Editoras independentes revelam talentos e preservam “bibliodiversidade”
Pequenas casas editoriais pelo Brasil apostam em modelos artesanais e sob demanda para garantir a variedade literária e apresentar novas vozes
Se não está fácil para as grandes, imaginem para as pequenas. Editoras como Interseção, Bloco Narrativo, Verve, Arpillera e Janela Amarela, de diferentes partes do Brasil, sobrevivem e enfrentam os desafios estruturais de um mercado editorial já bastante acanhado e, mais do que nunca, canibalizado por modelos de negócios que, no fim das contas, inviabilizam os próprios negócios.
Essas casas, fundadas em momentos distintos, de 2001 a 2024, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Niterói, apostam no trabalho artesanal, na edição sob demanda e no foco em nichos. O objetivo? Promover e preservar a bibliodiversidade, e apresentar novas vozes à literatura brasileira, apesar de uma distribuição de mercado desigual e da reduzida visibilidade.
O cenário da edição independente e seus métodos
O mercado editorial brasileiro enfrenta um contexto onde a participação das pequenas editoras é limitada. Apesar de serem responsáveis por revelar novos nomes da literatura e por nutrir a variedade de obras, elas operam com capital de giro restrito. Acesso a grandes eventos literários e estandes de exposição permanece um obstáculo para estas iniciativas.
Andrea Samico, sócia da Interseção Design de História, fundada em 2001, comenta sobre a dificuldade em obter espaço para autores iniciantes. A editora carioca, que inicialmente focava em livros corporativos, adota um modelo de trabalho próximo aos autores.
Samico descreve a relação como uma parceria que transcende o financeiro, abrangendo apoio emocional e consultoria: “Atuamos com eles como sócios de seus projetos, também como psicólogos, consultores, amigos. Trazemos para perto. O nosso entendimento é que o autor não chega com um livro aqui: ele chega com um sonho – algo que muitas vezes ele deixou guardado numa gaveta por anos e, entre tantas editoras no mercado, escolheu vir publicar conosco”.
A Interseção se dedica a obras que estimulam o diálogo e o pensamento, fugindo do tradicional. Ela busca ampliar o alcance de histórias que provocam reflexão. Até o final do ano, a Interseção planeja lançar títulos de poesia, romance, história autobiográfica e literatura infantojuvenil.
Modelos inovadores e foco em nichos
Bruno Drummond, criador da Editora Bloco Narrativo em 2020, inaugurará um espaço físico com mini livraria, café e galeria em Icaraí, Niterói, no Rio de Janeiro. Drummond, que fundou a editora para publicar seu próprio livro, percebeu a demanda de outros autores independentes. Ele caracteriza sua operação como uma “casa de autopublicação”, com foco em tiragens sustentáveis. A Bloco Narrativo lança, em média, quatro livros por ano, abrangendo quadrinhos e fotolivros.
Na Bahia, Yara Fers e Thiago Gatti fundaram a Editora Arpillera em outubro de 2022. A editora se distingue por oferecer livros artesanais, com costuras manuais e um apelo sensorial. Arpillera busca resgatar o fazer analógico em um mundo digital. Anualmente, a Arpillera abre chamadas para originais, priorizando obras de mulheres, pessoas negras, com deficiência, LGBTQIA+ e indígenas.
Yara Fers conduz a leitura, edição e revisão, além da gestão de redes sociais e releases. Thiago Gatti cuida do site, vendas online e envios. O projeto gráfico é colaborativo entre os editores e os autores. A participação em eventos literários é uma estratégia essencial para a Arpillera, onde o livro artesanal ganha destaque pelo contato físico. Para o final do ano, a editora tem planos de lançar a Coleção Agulhinha, com livros infantis de autoras baianas.
A Verve, criada em 2024 no Rio de Janeiro por Rosana Caiado e Fernanda Mello, especializa-se em biografias sob encomenda. A editora oferece o serviço de escrita das histórias, eliminando a necessidade de o biografado ser um escritor. Os livros da Verve são entregues com capa dura, quatro cores e fotos. A equipe já realizou produções como presentes surpresa para aniversários importantes e histórias de pessoas já falecidas.
A Janela Amarela, também do Rio de Janeiro, é outra editora a adotar o modelo de produção após a compra. Fundada em 2020 por Carol Engel e sua mãe, Ana Maria Leite Barbosa, a editora se dedica ao resgate de escritoras dos séculos XIX e XX e à publicação de autores independentes. Carol Engel ressalta a dedicação artesanal a cada etapa do processo editorial.
Para produção e distribuição, a Janela Amarela trabalha em parceria com a UmLivro, que gerencia vendas online e atende livrarias. A editora relançou grande parte da obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), que foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras. O primeiro título de Júlia publicado pela Janela Amarela foi Memórias de Martha.
Carol Engel informa que a editora busca diversificar as autoras, lançando de cinco a seis livros de resgate literário anualmente, além de obras de autores independentes. A editora enfrentou resistência inicial de livrarias por não adotar o modelo de consignação. Atualmente, algumas livrarias compram os títulos da Janela Amarela para estoque ou os vendem em seus sites. A editora concluiu a publicação dos 17 romances de Júlia Lopes de Almeida. A Janela Amarela ainda possui obras inéditas de Júlia Lopes de Almeida e planeja lançar novos títulos de Chrysanthème e Maria Clara da Cunha Santos.
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