Gustavo Nogy na Crusoé: Verissimo sem mas nem porém
Se não teve um título grandão para se enfiar nos compêndios de história da literatura brasileira, ele conseguiu inventar uma atmosfera
Pelo jeito, está aberta a temporada de caça aos cartunistas, humoristas e cronistas brasileiros.
Depois de levar embora o Jaguar, a indesejada das gentes voltou a dar o ar de sua desgraça e, poucos dias depois, viajou a Porto Alegre para mexer com quem estava (como sempre esteve) quieto: Luis Fernando Verissimo. Só assim para ele sair de casa.
Falando em família, é curioso que, já faz tempo, o Verissimo realmente lembrado é o filho, não o pai.
Érico foi, no conjunto da obra, um escritor importante. Mas, lido com lupa, foi menos artisticamente escritor que o filho, Luis.
Reconhecemos O Tempo e o Vento e de Olhai os Lírios do Campo mais como “grandes livros” que por suas qualidades estéticas; elas existem, mas discretas.
Ele mesmo – sem demérito – admitia suas limitações.
Com Luis Fernando foi o contrário. Suas crônicas, suas muitíssimas crônicas, seus romances, seus desenhos, suas frases, seus personagens – e até mesmo sua persona: evasiva, irônica, ensimesmada – à primeira lida, ao primeiro contato, não tinham uma cara assim de “grande obra”, nem ele de “grande autor”.
Pareciam coisa prosaica, pequena, cotidiana. Ele, um “desinfluenciador”. Mas não eram, não são, não serão.
Se não teve um título grandão para se enfiar nos compêndios de história da literatura brasileira, conseguiu, entretanto, inventar uma atmosfera.
Um idioma humorístico só seu. Comparado a outros grandes cronistas, talvez só dois, e dos melhores, tenham arrumado um jeito de dizer as coisas que fosse reconhecível até por quem nunca os leu: o hiperbólico Nelson Rodrigues e o niilista Millôr Fernandes.
Ambos, mais Verissimo, formam o trio dos que deram à crônica uma impressão digital difícil de se confundir com as outras.
Isso vale tanto! Isso vale muito mais que o conteúdo de cada uma das crônicas e, principalmente, que o conteúdo do que o gaúcho, torcedor do Internacional, disse nas poucas ocasiões em que abriu a boca para falar.
Política? Grande coisa é a política! Eu tenho opinião política, você tem opinião política, minha mãe, que gostava do Maluf, tinha opinião…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)