É preciso cuidado com a (pseudo) ciência tradicional

09.10.2026

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O Antagonista
É preciso cuidado com a (pseudo) ciência tradicional
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Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 05.09.2025 16:55 comentários
Cultura

É preciso cuidado com a (pseudo) ciência tradicional

A integração de saberes tradicionais e métodos científicos em instituições globais evidencia avanços e dilemas na avaliação de suas aplicações

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Gustavo Nogy
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É preciso cuidado com a (pseudo) ciência tradicional
Totem Maori. Foto de Gaurav Kuma

Em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, o chamado “conhecimento tradicional” (de povos nativos) tem sido cada vez mais integrado à ciência moderna. Instituições tentam aplicar práticas “ancestrais” em saúde e educação e, embora seja importante compreender e valorizar saberes históricos e experiências acumuladas, essa abordagem enfrenta críticas. Muitas vezes justas.

A questão mais importante é saber quais são os critérios e como discernir contribuições válidas de afirmações sem base científica, ciência (prática) de pseudociência, evitando que conceitos pseudocientíficos ou soluções sem nenhum tipo de evidência ou indício de eficácia contaminem a alocação de recursos e comprometam a credibilidade de sistemas públicos de saúde.

Nem tudo o que é antigo é bom ou funciona

O interesse pelo conhecimento indígena cresceu nos últimos anos, dentro de certo contexto em que se cruzam ciências humanas e naturais. De fato, um acervo de informações que culturas ancestrais usaram para adaptação e sobrevivência têm sido pesquisado com a seriedade que merece.

Antes da influência europeia, por exemplo, os quechua andinos empregavam quinino da cinchona contra febres, tornando-se o primeiro tratamento eficaz para a malária. De modo análogo, o salicina do salgueiro tratava dor e inflamação entre tribos americanas, levando à aspirina. O conhecimento indígena também impulsionou o progresso humano com navegação, construção, inovações agrícolas e caça.

No entanto, muitas práticas promovidas sob a “grife” da ancestralidade carecem de mérito científico e exigem cautela em seu uso.

Na Austrália, a adoção da “cura espiritual” aborígene no sistema de saúde causou alarme por envolver crenças em feitiçaria, e não agentes biológicos.

Nos Estados Unidos, terapias alternativas como remédios herbais nativos e cerimônias espirituais desviam recursos da medicina baseada em evidências. Relatos indicam cada vez mais pacientes com câncer que recusam tratamentos comprovados em favor de remédios tradicionais não testados.

A idealização abrange saberes europeus antigos, onde a longevidade de uma prática não garante o status de “sabedoria antiga”. A sangria, usada do Egito antigo à Europa medieval até 1850 para várias condições médicas, pode ter apressado a morte de George Washington.

O historiador William Stahl comenta que “os escritos dos antigos… eram valorizados e preservados como ditos de ouro”. Contudo, muitos desses remédios populares históricos se mostraram ineficazes, e crenças como astrologia e alquimia falharam sob escrutínio científico. Podem ser estudadas em outro âmbito – o do simbolismo e da hermenêutica. Não o das práticas medicinais.

A pseudociência nas instituições públicas

Na Nova Zelândia, a integração do conhecimento indígena em instituições ganhou importância, e fez o governo equipará-lo à ciência contemporânea no sistema de qualificação escolar. Essa valorização tem seus efeitos colaterais, e não poucas pessoas defendem que adequações ao calendário lunar māori podem influenciar saúde, bem-estar, horticultura e clima. Em 2023, uma política māori garantiu que o calendário poderia prever inundações, uma alegação sem evidências.

O governo neozelandês alocou 400 mil dólares para investigar se fases lunares afetam a gravidez, apesar de estudos indicarem nenhuma correlação com parto e saúde. Tais projetos desviam recursos de cuidados maternos baseados em evidências. Fatores relevantes nos resultados de nascimento são biológicos, genéticos e médicos.

Professores em escolas públicas usam o mesmo “critério” para planejar aulas, ajustando-as às fases da lua. Alguns evitam exames em dias de “alta energia” por crerem em falta de foco dos alunos. Um professor disse que, “se é um dia de baixa energia, posso não testar naquela semana. Faremos meditação, mirimiri [massagem]. Eu construo lentamente o aprendizado deles, e na época dos dias de alta energia sabemos que as crianças estarão enérgicas”.

Autoridades governamentais neozelandesas até agendam reuniões em dias menos propensos a conflitos. Desnecessário dizer que nenhuma evidência científica suporta essas afirmações.

As tradições indígenas merecem respeito, mas devem ser submetidas ao mesmo rigor científico de outros conhecimentos. Parte da sabedoria antiga é sábia; parte é apenas antiga. O que chamamos um tanto solenemente de “ciência”, afinal de contas, é o conjunto dos métodos, critérios e processos científicos que desenvolvemos para chegar a resultados que possam ser checados e reproduzidos. O conhecimento indígena ou antigo tem de valer por seus méritos, sem descarte ou aceitação acrítica, e se acomodar naturalmente aos debates contemporâneos.

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