“Quem está vencendo na corrida pela IA: China ou Estados Unidos?”
A revista britânica The Economist mostra como regulação e vigilância estatal ajudam a China a disputar com os EUA a liderança mundial em inteligência artificial
A revista britânica The Economist publicou nesta terça, 2, o artigo intitulado “Quem está vencendo na IA: China ou Estados Unidos?”, analisando como os dois maiores rivais tecnológicos do planeta disputam não apenas supremacia técnica, mas também a capacidade de impor seus modelos de governança da inteligência artificial.
O texto destaca que, em 2025, o controle regulatório da IA é o “maior prêmio de todos”. Diz a reportagem: “o momento DeepSeek lançou dúvidas sobre as estratégias americanas de negar à China o acesso a semicondutores avançados.”
O lançamento do modelo de linguagem DeepSeek-R1, em janeiro, surpreendeu por ter sido construído com muito menos poder computacional e financiamento do que os concorrentes dos Estados Unidos.
O feito abalou a confiança na eficácia das sanções americanas contra o setor tecnológico chinês.
Mesmo com proibições em países como Itália e Taiwan, “investidores e autoridades chinesas estão otimistas”.
A estratégia é clara: usar apoio estatal, eletricidade barata e propaganda para difundir modelos acessíveis, baratos e eficientes. “O partido quer que a tecnologia seja usada o mais rápida e amplamente possível.”
Nos Estados Unidos, o clima é de urgência estratégica. “O futuro da IA não será vencido por choramingos sobre segurança”, disse o vice-presidente J.D. Vance, criticando os europeus por excesso de cautela regulatória.
Há quem veja a disputa tecnológica como comparável à corrida pela bomba atômica. Mas outras lideranças, como o primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, discordam. “A grande vantagem da tecnologia é quando há uma adoção ampla e generalizada.”
O artigo cita ainda o estudo da professora Angela Huyue Zhang, da Universidade do Sul da Califórnia, que aponta uma combinação singular na China: “controles rígidos sobre informação coexistem com fiscalização frouxa sobre privacidade, direitos autorais e proteção de dados.”
Graças ao compartilhamento massivo de dados estatais com empresas privadas, sistemas de reconhecimento facial de ponta foram desenvolvidos rapidamente. “Juízes se gabam publicamente de tomar decisões que aceleram o desenvolvimento da IA na China.”
A consequência é um modelo que prioriza eficiência e controle social em detrimento de direitos individuais. “Na China, discriminação racial é um modelo de negócios.”
O texto lembra que empresas já registraram patentes de sistemas que identificam uigures e outras minorias étnicas, tradicionalmente alvo de vigilância intensiva por parte das autoridades. A Comissão Europeia, em seu livro branco sobre IA, alertava contra esse tipo de viés e uso discriminatório de algoritmos.
“Se algum dia surgir um efeito China, dificilmente ele provocará uma corrida por padrões mais elevados.” Ao contrário dos efeitos regulatórios da Califórnia e da União Europeia, que influenciaram o mundo elevando padrões ambientais e digitais, o modelo chinês oferece custo baixo, conveniência e estabilidade, o que pode atrair países sem tradição liberal ou estrutura regulatória robusta.
O texto encerra com um alerta sobre os riscos da abordagem americana. “Os Estados Unidos estão entregando um presente político à China.”
O presidente Donald Trump ameaçou impor tarifas a países que tentem regular empresas de tecnologia americanas, fortalecendo o argumento chinês de que a regulação ocidental seria ideológica e punitiva. Esse discurso pode facilitar a exportação do modelo chinês para mercados em desenvolvimento.
O artigo mostra que, na disputa por influência global sobre a inteligência artificial, não basta ter a melhor tecnologia. A forma como cada país regula, promove e impõe seus padrões pode definir quem liderará a próxima era digital.
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