A bizarra história do homem que vendeu um país que não existia
Esquema do século XIX mostra os padrões psicológicos explorados por farsas digitais e campanhas de desinformação
É sempre bom lembrar que charlatanismo, fake news, hoax, papo furado, lero-lero, desinformação e golpe são coisa antiga. Enquanto houver gente respirando haverá gente mentindo.
Um certo aventureiro escocês – ou, para ser mais preciso cientificamente, um certo picareta escocês – chamado Gregor MacGregor orquestrou em 1820 um golpe financeiro e territorial que faria a inveja de vendedores de cursos online sobre como ficar rico vendendo cursos online ou obras de “arte” criptografadas em NFTs.
Em perambulou por Londres e na Escócia vendendo terras de um país fictício que ele chamou de Poyais. Localizado na costa que hoje corresponde a Honduras e Nicarágua, o território era, na verdade, um deserto inabitado. Inabitado como a cabeça de quem porventura o comprou.
MacGregor forjou documentos e apelou a estratégias de marketing espertinhas, como o tal “princípio da escassez”, para capitalizar sobre a confiança pública. O esquema resultou na morte de aproximadamente 80% dos colonos que viajaram para o local.
O impostor de Poyais e seus “herdeiros” intelectuais
Gregor MacGregor foi (presume-se) um militar escocês com alguma reputação por ações na América Central. “Adquiriu” uma faixa de terra estéril e desabitada em 1820. Rebatizou a área como a “próspera nação de Poyais” e, de sua casa em Londres, lançou uma vasta campanha de promoção. Como não tinha marketing digital, foi na mão mesmo.
Na descrição, Poyais era um paraíso tropical com solo fértil, rios cheios de ouro, nativos amigáveis e uma capital movimentada com infraestrutura moderna. Para dar credibilidade à sua ficção, encomendou um guia de 355 páginas, falsificou registros, criou uma moeda e compôs um hino nacional. (Será que ainda tem terreno à venda?)
O golpe deu certo. Londrinos e escoceses, atraídos por laços identitários, pela fama militar de MacGregor e pelo boom de investimentos na América Central, investiram enterraram dinheiro no negócio – no total, o equivalente hoje a mais de um bilhão de dólares (eu enviaria um emoji aqui, mas não posso). O gênio, quer dizer, o criminoso alertava os potenciais compradores sobre a rápida venda dos terrenos – “últimas unidades!” – acionando o receio de perder a oportunidade.
No final de 1822, os primeiros 250 colonos partiram para seu novo país. Chegando “lá”, encontraram uma terra selvagem, nenhuma cidade, nem fazenda, nem ouro, nem índio bonzinho. Doenças e condições severas mataram quase todos. Os que sobreviveram voltaram à Grã-Bretanha para contar a história.
MacGregor negou responsabilidade – “Se ofendi alguém, peço desculpas, mas…” – jogou a culpa nos cúmplices e – embora não fosse brasileiro – conseguiu se safar da prisão. Foi embora rico para a… Venezuela.
A psicologia da fraude
Freud explic… – ou melhor, os psicólogos sociais explicam. O êxito da fraude de MacGregor consiste na manipulação de instintos sociais que promovem a confiança. Essa capacidade de explorar dimensões atávicas da psicologia humana faz com que a desinformação não seja um fenômeno recente, mas uma constante histórica.
No século XIX, a fraude se disseminava lentamente por meio de panfletos e discursos. Hoje, a informação – ou a desinformação – se propaga à velocidade de um clique, por publicações virais e anúncios segmentados. Os algoritmos, sempre eles.
Embora as ferramentas evoluam, as vulnerabilidades exploradas continuam as mesmas. A confiança em quem tem bom papo, o medo de perder oportunidades e a propensão a aceitar narrativas que se alinham aos nossos desejos são elementos explorados por golpistas.
Em qualquer época, em 1820 ou 2025, haverá quem saia à rua para enganar e quem saia à rua para ser enganado. E nem precisa existir rua.
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