Crusoé: Trump contra as TVs
Presidente ameaçou não renovar concessões de canais, que produzem "97% de notícias ruins" sobre ele
Em uma publicação na rede Truth Social, na segunda, 25, o presidente americano Donald Trump acusou as redes ABC e NBC de atuarem como braços do Partido Democrata e de produzirem “97% de notícias ruins” sobre ele.
Ele chegou a sugerir que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) deveria retirar as licenças de transmissão das emissoras.
O discurso, mais do que uma ameaça concreta, tem valor estratégico. A FCC não concede licenças nacionais para redes como ABC e NBC, mas para afiliadas locais, inviabilizando uma cassação total.
O que ele quer?
O que Trump consegue com declarações desse tipo é reforçar a narrativa de perseguição por parte da “mídia tradicional” e mobilizar seus apoiadores contra veículos que o criticam.
A tática não é nova. Durante seu primeiro mandato, o presidente fez da imprensa um adversário central. Processou jornalistas, veículos e pressionou diretamente as empresas de comunicação.
Só que o efeito dessa ofensiva já atinge a dinâmica editorial: executivos teriam deixado cargos-chave, entrevistas foram cortadas, emissoras passaram a evitar determinados temas e até indenizações foram pagas ao presidente.
Chilling effect
Em julho, o programa The Late Show, de Stephen Colbert, na CBS, foi cancelado.
Há quem veja nisso uma tentativa do canal de agradar Trump, alvo constante de críticas e zombarias no programa.
Não se trata de censura formal, proibindo deliberadamente um conteúdo ou tema, mas da instalação de um ambiente em que a linha editorial é moldada pelo medo de retaliações, inibindo iniciativas e pautas que desagradariam quem está no poder. É o fenômeno conhecido como chilling effect, o “efeito apavorante“.
Brasil já viu esse filme
No Brasil, esse tipo de atitude não é exatamente uma novidade. O então presidente Jair Bolsonaro seguiu um roteiro bem parecido, ao mirar a TV Globo entre 2019 e 2022.
Bolsonaro disse várias vezes que não renovaria a concessão da emissora, que vencia em outubro de 2022, a acusando de perseguição política e classificando sua cobertura como “lixo”.
Mas, assim como nos Estados Unidos, a ameaça de Bolsonaro também teve alcance limitado. Pela lei brasileira, a decisão final sobre concessões cabe ao Congresso Nacional.
Bolsonaro acabou renovando a concessão…
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