Trump desafia independência do Fed e estressa mercados
Trump mira o comando do Fed e acende alerta sobre impactos no dólar, inflação e estabilidade financeira dos EUA
A tentativa de destituir Lisa Cook do Federal Reserve, articulada por Donald Trump em 26 de agosto, ultrapassa os limites da normalidade institucional e sinaliza um abalo na credibilidade da autoridade monetária dos Estados Unidos.
Cook é economista e um dos 7 membros do Conselho de Governadores do Federal Reserve, entidade que conduz a política monetária dos EUA.
Ela é acusada de fraude hipotecária, uma alegação considerada frágil por economistas como Paul Krugman, que alertou para os riscos de enfraquecimento institucional.
Krugman, ganhador de um Prêmio Nobel de economia, é conhecido por suas opiniões e previsões, algumas furadas, mas nesse ponto ele traz argumentos coerentes.
Em um artigo publicado no Substack, ele faz uma comparação com a Turquia, onde a ingerência política na política monetária agravou a inflação, mostrando sua preocupação em como a independência do Fed é tratada, historicamente, como um ativo estratégico.
Essa autonomia, consolidada após as crises inflacionárias dos anos 1970, sustenta a previsibilidade das decisões da entidade sobre os juros e a confiança dos mercados no compromisso dela com a estabilidade de preços.
Lisa realmente tem que responder às acusações de fraude de financiamento de imóveis, mas para isso existem canais dentro do próprio FED e da justiça para conduzir o processo e o atropelo de Trump, além de ser precipitado, é entendido como uma interferência direta.
Ele deseja substituí-la o quanto antes por alguém que leve adiante seu desejo pessoal de baixar a taxa de juros na marra, mesmo que sem fundamentos para isso, abrindo um precedente para mudanças no colegiado do Fed – e, portanto, em suas decisões futuras – baseadas em alinhamento político, não em critérios técnicos.
Com isso, Trump coloca incerteza nas expectativas de inflação de longo prazo, o que pode se refletir em prêmios de risco mais altos e custos permanentes de financiamento para o Tesouro.
A reação imediata dos mercados indicou percepção de risco, com o dólar perdendo força, o ouro se valorizando e os juros futuros oscilando de forma atípica, com alta nas taxas de longo prazo e recuo nos prazos curtos.
Investidores interpretaram o episódio como um teste ao limite de interferência do Executivo sobre uma instituição que, por desenho, deveria operar com proteção contra pressões políticas de curto prazo.
Nos próximos dias, todos estarão de olho na resposta jurídica ao ato presidencial. A legislação que rege o mandato dos diretores do Fed prevê demissão apenas por justa causa, conceito que será interpretado nos tribunais.
A reação do presidente do Fed, Jerome Powell, e dos demais integrantes do comitê de política monetária indicará se haverá resistência interna ou acomodação à pressão.
Também será importante observar como o Congresso, especialmente as lideranças republicanas, partido de Trump, vai se posicionar diante da possibilidade de uma reconfiguração política do Fed, algo que poderia redefinir de forma estrutural a condução e credibilidade da política monetária americana.
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