Áudio pode ligar irmã de Milei a propina na compra de remédios
Justiça faz 16 buscas, apreende US$ 266 mil e analisa celulares; governo intervém na Andis e demite ex-chefe que gravou áudios
A Justiça da Argentina investiga áudios em que Diego Spagnuolo, ex-chefe da Agência Nacional para a Deficiência (Andis), acusa a secretária-geral da Presidência, Karina Milei, e o subsecretário de gestão institucional, Eduardo “Lule” Menem, de participar de um esquema de propina ligado à compra de medicamentos para a rede pública.
As gravações vieram a público na quarta, 20, e desencadearam diligências e medidas cautelares, segundo o processo.
De acordo com Spagnuolo, havia na Andis uma cobrança de até 8% sobre o faturamento de farmacêuticas para assegurar contratos com o governo, operação que poderia alcançar US$ 800 mil mensais (cerca de R$ 4,3 milhões).
Ele atribui a Karina Milei entre 3% e 4% do valor arrecadado e aponta “Lule” Menem como principal operador, com apoio de empresários ligados à distribuidora Suizo Argentina.
Na sexta, 22, a Justiça realizou ao menos 16 buscas, com apreensão de celulares, máquinas de contar dinheiro e valores em espécie.
Foram recolhidos US$ 266 mil (R$ 1,5 milhão, na cotação indicada no caso). O juiz federal Sebastián Casanello proibiu os investigados de deixar o país enquanto a apuração prossegue.
A autenticidade dos áudios ainda é examinada pericialmente.
Quatro celulares, entre eles o de Spagnuolo, estão sob perícia e são tratados como provas-chave para confirmar ou refutar as acusações, conforme o inquérito.
Até o momento, cinco pessoas figuram como rés por suspeitas de suborno, corrupção, administração fraudulenta e violação à ética pública.
Os envolvidos citados na apuração incluem Karina Milei, secretária-geral da Presidência; Eduardo “Lule” Menem, apontado como articulador político; e Diego Spagnuolo, autor dos áudios e ex-titular da Andis, demitido na quinta, 21.
Também são mencionados os empresários Emmanuel e Jonathan Kovalivker, da Suizo Argentina — um deles foi encontrado com US$ 266 mil em espécie, e o outro está foragido —, além de Daniel Garbellini, diretor da Andis afastado.
A denúncia foi protocolada pelo advogado Gregorio Dalbón, ligado à ex-vice-presidente Cristina Kirchner.
O registro ocorreu na mesma semana em que o Congresso derrubou veto do presidente Javier Milei a uma lei que declarava emergência para pessoas com deficiência e ampliava o financiamento do setor, contexto destacado pelo autor da queixa como “matriz de corrupção”.
O governo anunciou a saída de Spagnuolo por meio de porta-voz, a intervenção na Andis e a realização de auditoria.
Na segunda, 25, Milei apareceu em público ao lado da irmã e evitou tratar diretamente das acusações, criticando Congresso e imprensa. O chefe de gabinete, Guillermo Francos, disse que o presidente está “tranquilo” e sugeriu perseguição política em período eleitoral.
No Legislativo, parlamentares discutem a abertura de uma CPI para apurar as acusações contra a secretária-geral da Presidência.
O presidente da Câmara dos Deputados, Martín Menem, primo de “Lule”, afirmou “pôr as mãos no fogo” por ambos e classificou os áudios como “operação política”, segundo suas declarações.
O caso ocorre a duas semanas da eleição para o governo da província de Buenos Aires e a dois meses do pleito legislativo.
Em cenário de queda recente de aprovação, aliados de Milei avaliam impacto eleitoral e eventual perda de capital político caso as urnas reflitam desgaste.
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