Preconceito contra EaD prejudica alunos e atrasa avanço educacional no Brasil
Cada vez mais procurado, o Ensino a Distância já é a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, especialmente entre estudantes com menos recursos
Para muita gente, a Educação a Distância (EaD) é uma modalidade de menor qualidade – “faculdade para quem não consegue fazer faculdade” – e isso tem comprometido o rendimento estudantil no Brasil. Alunos pertencentes a grupos com menos recursos são os mais diretamente afetados por essa percepção, tendo seu desempenho acadêmico e seu ingresso no mercado de trabalho questionado.
Os professores Jorge Jacob, do IÉSEG School of Management, e Henrique Heidtmann Neto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontam que um estudo recente, que envolveu cerca de 700 estudantes de EaD de uma instituição privada bem avaliada, revelou que o julgamento social ativa processos mentais específicos, os quais afetam a concentração e o raciocínio dos estudantes.
O fenômeno ganhou relevância no debate público após a pandemia de Covid-19, que generalizou a experiência do ensino remoto. A modalidade EaD se tornou como a principal porta de entrada para o ensino superior, respondendo por quase metade das novas matrículas no ano de 2023. Entretanto, o preconceito persiste, porque a EaD, apesar de sua popularidade e de oferecer acesso às classes sociais C, D e E, carrega o fardo de uma subvalorização social, comprometendo a autoestima e a motivação dos alunos.
Impacto psicológico e acadêmico da percepção social
Pesquisadores demonstraram que o estigma pode prejudicar os resultados acadêmicos, não por falha na qualidade das aulas, mas devido a esses mecanismos psicológicos ativados pelo julgamento social preexistente. Em uma pesquisa, participantes foram convidados a fazer uma prova complexa. Para um grupo, a simples informação de que o teste visava comparar o desempenho de estudantes EaD com os de cursos presenciais foi suficiente para ativar o estereótipo de que estudantes EaD seriam menos aptos.
O resultado foi um desempenho inferior nesse grupo. A ativação desse julgamento externo gerou insegurança e prejudicou a capacidade de concentração e raciocínio. Em contraste, estudantes que também foram expostos ao estereótipo, mas tiveram a reputação da instituição lembrada antes do teste, apresentaram desempenho superior, inclusive aos demais grupos. Esse achado mostra que o impacto do preconceito pode ser mitigado, quando os alunos se sentem parte de um grupo reconhecido e valorizado. Indicadores emocionais, como ansiedade e foco preventivo, também confirmaram esses efeitos, com níveis significativamente menores de estados negativos em alunos lembrados da reputação da instituição. A literatura sobre ameaça de estereótipos corrobora que a associação a um grupo estigmatizado pode sabotar a performance individual.
Contradição e desafios para a inclusão educacional
A Educação a Distância opera em um estado de contradição no país. Enquanto se tornou a principal via de acesso ao ensino superior, sendo responsável por aproximadamente 50% das novas matrículas em 2023, conforme dados do Inep, continua a enfrentar desvalorização social.
Atualmente, o EaD corresponde a aproximadamente metade do ensino superior no Brasil, e a quase 80% da oferta de novas vagas. A vasta maioria dessas matrículas ocorre na rede privada, superando 95% do total. Com mensalidades mais acessíveis que os cursos presenciais, a modalidade desempenha um papel central na democratização do acesso ao ensino superior para as classes C, D e E, historicamente com menor acesso a universidades públicas.
Essa tendência revela que o preconceito atinge justamente os segmentos que mais dependem da EaD para sua ascensão social e educacional. Portanto, combater esse preconceito é de alta relevância. A solução passa pelo reconhecimento e pelo compromisso das instituições de ensino em proteger, valorizar e incluir todos os seus estudantes, independentemente da modalidade de aprendizado que escolheram.
É curioso que, embora tudo tenha migrado para (ou “nascido”) o ecossistema digital – fazemos compras (e muitas vezes importamos) de produtos caríssimos; contratamos serviços complexos e urgentes; encontramos fornecedores em outros países; nos relacionamos com os mais diversos tipos de pessoas, a despeito do sotaque, da nacionalidade, do currículo… aprender à distância, estudar matemática ou design, filosofia ou robótica, continua a ser motivo de suspeita. Será que zelamos, de fato, pela qualidade pedagógica e profissional, ou porque a educação continua a representar um marcador social e classista importante que, sem perceber, nos recusamos a abandonar?
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