Cinema da USP realiza mostra gratuita sobre o cotidiano e o tempo
Exibição reúne 20 produções de 11 países, focando em narrativas de ritmo lento e a vida diária, com entrada franca em São Paulo
O Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), apresenta a mostra “Nada Acontece”, em que serão exibidos 20 filmes de 11 países até 31 de agosto, com acesso gratuito em duas unidades da capital paulista. A iniciativa propõe uma abordagem cinematográfica que valoriza a passagem do tempo e as situações banais do cotidiano, distanciando-se de tramas com alta intensidade ou conflitos dramáticos. O objetivo é proporcionar uma experiência de imersão, fundindo o tempo da projeção com a percepção do espectador.
A estética da absorção e a vida comum
A curadoria da mostra, composta por Maria Fernanda Araujo, André Quevedo, Filipe Oliveira e Francesco Félix, baseia-se na “Estética de Absorção do Cinema Contemporâneo”, desenvolvida pelo professor Luiz Carlos de Oliveira Jr. O conceito, inspirado na “absorção da pintura”, do crítico Michael Fried, aplica-se a filmes nos quais o espectador se vê absorto por personagens entregues ao tempo ou a atividades comuns. Maria Fernanda Araujo destaca que são “filmes sem um grande enredo, que trazem uma sensação, talvez, de dilaceramento do tempo, fazendo com que ele se funda, por vezes, ao tempo do espectador”.
Entre as produções programadas, filmes de Andy Warhol exploram essa perspectiva. O longa Sleep (1963), com mais de cinco horas de duração, exibe o companheiro do cineasta dormindo, e está em exibição no hall de entrada do Centro Cultural Camargo Guarnieri. Os médias-metragens Kiss (1963), que mostra casais se beijando, e Blow Job (1964), que retrata as reações de um homem, foram tema de debate em uma sessão especial em 14 de agosto, com Fernanda Fachin, da USP.
A diretora belga Chantal Akerman também tem lugar de destaque, com a exibição do longa Jeanne Dielman (1975). A obra, de mais de três horas, narra a rotina de uma viúva e a gradual desestruturação de seu cotidiano. Akerman também foi tema de uma sessão especial em 28 de agosto, com os filmes Eu, Tu, Ele, Ela (1974), sobre uma mulher após o fim de um relacionamento, e o curta La Chambre (1972), um exercício com câmera panorâmica no apartamento da diretora.
A mostra inclui ainda Pai e Filhos (2014), do chinês Wang Bing, que acompanha a vida de adolescentes em um cômodo de extrema pobreza. Obras brasileiras como Temporada (2018), de André Novais Oliveira, que segue a adaptação de uma agente de saúde em Minas Gerais, e Dias Perfeitos (2023), de Wim Wenders, sobre um limpador de banheiros em Tóquio, também abordam a minúcia da vida diária.
Panorama internacional
O programa internacional se expande com o sul-coreano A Mulher que Fugiu (2020), de Hong Sang-Soo, que desvela o cotidiano feminino longe dos homens. O tailandês Apichatpong Weerasethakul contribui com Síndromes e um Século (2006), explorando memórias hospitalares da infância do diretor. O francês Jean-Claude Rousseau apresenta Do Apartamento Dele, um trabalho minimalista que retrata o diretor em seu espaço.
A “banalidade quase angustiante” é explorada em A Liberdade (2001), de Lisandro Alonso, que segue o dia de um lenhador. O curta Walker (2012), de Tsai Ming-Liang, mostra um homem caminhando tranquilamente por Hong-Kong. O longa Estranhos no Paraíso (1984), de Jim Jarmusch, foca em diálogos longos e a incerteza de três jovens.
Clássicos como Umberto D (1952), de Vittorio De Sica, retratam a vida de um aposentado ameaçado de despejo no pós-guerra. 11×14 (1977), de James Benning, apresenta 65 planos contemplativos do centro-oeste americano. Completam a mostra O Eclipse (1962), de Michelangelo Antonioni, que, segundo a divulgação, apresenta uma encenação onde “a encenação se torna gradativamente mais autônoma, conduzindo os personagens, não o contrário”, estabelecendo “indiferença entre espaço, objeto e ser humano”. Finalmente, Pai e Filha (1949), de Yasujirō Ozu, explora as transformações da vida em crise lenta e cotidiana, em analogia aos ciclos naturais.
Onde?
As sessões acontecem na Nova Sala do Cinusp, no Centro Cultural Camargo Guarnieri, Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia da USP, na Vila Buarque, região central de São Paulo. A entrada é gratuita e a programação completa está disponível no site do Cinusp.
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