A poesia bolsonarista no relatório da PF
Mensagens confirmam como os Bolsonaro lidam com sua velha e incontornável paixão
“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”, diziam os famosos versos de Carlos Drummond de Andrade no poema intitulado “Quadrilha”.
A “Quadrilha” do bolsonarismo, revelada na noite de quarta-feira, 20 de agosto, em relatório da Polícia Federal, é menos singela.
Eduardo Bolsonaro mandava um “VTNC” para o pai “ingrato do caralho” quando era chamado de imaturo; recebia dele a orientação de esquecer “qualquer crítica” ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal; dizia ao ex-presidente que o governador Tarcísio de Freitas “sempre esteve de braço cruzado vendo vc se fuder [sic] e se aquecendo para 2026”; e era chamado de “babaca” que fala “merda” por Silas Malafaia, o pastor estrategista de marketing que, além de atribuir duas caras ao dono do PL, Valdemar Costa Neto, por dizer uma coisa na frente e outra atrás, elogiava Flávio Bolsonaro por falar “certinho” na TV, sem dar o “discurso nacionalista” a ninguém.
Drummond contava que “João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”.
Eduardo, com 2 milhões de reais transferidos pelo pai, ficou nos EUA com seu porta-voz Paulo Figueiredo; Jair Bolsonaro “tinha em sua posse” um pedido de asilo “que viabilizaria sua evasão do Brasil em direção à República Argentina”, mas acabou em prisão domiciliar em Brasília; Silas Malafaia, em vez de ir para o convento, virou alvo de busca e apreensão; e todos eles foram indiciados pela PF por coação no curso do processo, “em razão de identificação de condutas direcionadas a interferir na Ação Penal n. 2668”, da trama golpista, na qual o ex-presidente “consta como réu”, ao lado de outras pessoas que ele próprio colocou na história.
Jair Bolsonaro colocou, também, 2 milhões de reais na conta de sua esposa, Michelle, enquanto Eduardo colocou 200 mil reais na conta da esposa dele, Heloisa; ambos agindo, segundo a PF, com a finalidade de contornar possíveis bloqueios em suas próprias contas.
Publicado em 1930 em “Alguma poesia”, primeira obra de Drummond, o poema “Quadrilha” sintetiza os desencontros da vida amorosa e as dificuldades humanas em estabelecer laços, com cada indivíduo seguindo em uma direção.
Enviadas 95 anos depois, as mensagens de WhatsApp trazidas a público no relatório da PF ilustram os barracos da vida bolsonarista e confirmam que sacrificar os outros para salvar Jair Bolsonaro sempre foi a escolha da família.
Se “a anistia light passar”, os EUA “não irão mais ajudar”, disse Eduardo ao pai, defendendo a opção de manter esforços junto ao governo de Donald Trump para “brecar o STF”, em vez de “enviar o pessoal” do 8/1 “para casa”, em possível regime “semiaberto”.
“Neste cenário vc: não teria mais amparo dos EUA, o que conseguimos a duras penas aqui, bem como estaria igualmente condenado [no] final de agosto. Eu acho que não vale a pena”, escreveu o deputado federal licenciado.
O conteúdo levou a PF a concluir “que a real intenção dos investigados não seria uma anistia para os condenados pelos atos golpistas”, mas, sim, “obter uma condição de impunidade de JAIR BOLSONARO”, “mediante ações de grave ameaça para coagir e restringir exercício da Suprema Corte brasileira”.
Eduardo ainda considerou como um obstáculo para este fim a percepção antecipada de que Tarcísio de Freitas será candidato à presidência. “A narrativa de Tarcísio te sucedendo, que já há acordo para isto, está muito forte. Precisamos segurar isso para nos mantermos vivos aqui”, escreveu ao pai. “Se o sistema enxergar no Tarcísio uma possibilidade de solução, eles não vão fazer o que estão pressionados a fazer.”
Essa pressão foi insuflada por Malafaia, em vídeo publicado nas redes sociais. Na linha de tantas publicações de Eduardo, o pastor fez, como definiu a PF, as “seguintes ameaças”:
“E um alerta aos ministros do STF, se vocês continuarem apoiando ALEXANDRE DE MORAES, para mim a próxima retaliação vai ser à pessoa física. Vão atingir ALEXANDRE DE MORAES, alguns ministros do STF, Diretor de Polícia Federal, Procurador-Geral e suas famílias, e a coisa vai ser feia demais. Vamos parar de bravata! Vamos sentar na mesa e acabar com essa palhaçada e farsa de pseudo golpe, de perseguição política a BOLSONARO.“
Em privado, Malafaia cobrava do ex-presidente um “discurso maior” e orientava Bolsonaro em como direcionar a narrativa para os interesses do grupo, mostrando ter conversado, também, “com quem está lá e com quem fala com o assessor de Donald Trump todo dia”.
“Tem que pressionar o STF dizendo que se houver uma anistia ampla e total, a tarifa vai ser suspensa. Ainda pode usar o seguinte argumento: NÃO QUEREMOS VER SANÇÕES CONTRA MINISTROS DO STF E SUAS FAMÍLIAS. Eles se cagão [sic] disso! A questão da tarifa é justiça e liberdade, não econômica. TRAZ O DISCURSO PARA ISSO! (…)
Você não vai esculhambar ALEXANDRE DE MORAES. Mas você pode se colocar, sim, e deve. ‘Olha, minha gente, a questão da tarifa de DONALD TRUMP não tem a ver com economia. Tem a ver com liberdade e justiça. Eu não quero ver retaliações sobre ministros do STF e suas famílias. Eu não quero ver isso. É só resolver a questão da ANISTIA que isso acaba’.”
Bolsonaro, em áudio enviado ao aliado, manifestava receios de escancarar a chantagem, mas dizia atuar naquele sentido, de que “se não começar votando a ANISTIA, não tem negociação sobre tarifa”. “Resolveu a anistia? Resolveu tudo. Não resolveu? Já era.”
Naquele mesmo dia 13 de julho, o ex-presidente acabou acolhendo as sugestões de Malafaia, como corroboram trechos da carta que mostrou ao pastor e depois publicou nas redes sociais:
“Não me alegra ver sanções pessoais, ou familiares, a quem quer que seja. Não me alegra ver nossos produtores do campo ou da cidade, bem como o povo, sofrer com essas tarifas de 50%. A solução passa por justiça aos presos pelo 08 de janeiro, passa pela anistia (…)
O tempo urge, as sanções entram em vigor no dia 1º de agosto. A solução está nas mãos das autoridades brasileiras. Em havendo harmonia e independência entre os Poderes, nasce o perdão entre irmãos e, com a anistia, também a paz para a economia.”
No poeminha de Drummond, todos têm paixões não correspondidas, exceto Lili, que não ama ninguém, mas acaba casando com alguém de fora, de nome comercial: J. Pinto Fernandes.
Na poesia bolsonarista exposta pela PF – que confirma um monte das minhas análises -, existem 50 tons de xingamentos, ameaças e chantagens, todos eles usados para lidar com a velha e incontornável paixão dos Bolsonaro pela impunidade, agora não mais correspondida.
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Comentários (5)
Márcio Roberto Jorcovix
22.08.2025 10:56Sim Aldo. Teria uma nova eleição De um candidato só, chamado Bolsonaro, porque enquanto ele não vencesse as eleições seriam fraudadas. Como Bolsonaro não teria apoio?? Eu é que teria ??
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
21.08.2025 18:51Eu não consigo enxergar aquele "exército de Brancaleone" que invadiu as sedes dos poderes em Brasília como uma trama golpista. E nem todo o resto, visto que não havia apoio militar, não houve movimentos de tropas, nada. Mes que ocorresse o mais grave que foi propalado, o assassinato de Alexandre de Moraes, Lula e Alckmin, não passaria daí. O presidente da câmara assumiria o governo e seriam realizadas novas eleições, as quais Bolsonaro muito dificilmente teria apoio para disputar e muito menos ganhar.
Eliane ☆
21.08.2025 17:25Errata:no 'meio' do caminho tinha uma pedra .
Eliane ☆
21.08.2025 17:22Felipe, muitas pedras no caminho da família Bolsonaro?No caminho tinha uma pedra...Sei lá, lembrei essa do Drummond.
Celia Maria Penedo
21.08.2025 16:45Como sempre, excelente artigo. Gostei particularmente da poesia de Drummond, bastante ilustrativa rsrsrs. Parabéns