João Vaccari é exaltado em evento do PT: “Justiça sendo feita”
“O PT me apoiou quando fui preso e quando saí da cadeia”, diz ex-tesoureiro do partido
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto (foto), condenado em sete processos da Lava Jato, foi homenageado neste sábado, 2, durante o 17º Encontro Nacional do partido, em Brasília. A iniciativa partiu da atual tesoureira Gleide Andrade, que pediu uma salva de palmas ao colega:
“Eu queria pedir o plenário aqui pra gente fazer uma… é uma iniciativa particular minha, mas uma justa homenagem a um grande companheiro nosso, que eu tive o prazer de entrar pra Direção Nacional junto com ele e tive o sofrimento de acompanhar tudo que ele passou ao seu lado, e que agora a justiça vem sendo feita com ele, a passos mais lentos, ele… ainda lhes resta alguns processos, mas a sua ampla maioria ele já foi ‘absorvido’, que é o nosso companheiro João Vaccari. Vaccari! Vem aqui, Vaccari! Queria pedir ao plenário uma salva de palma pro Vaccari. Vamo receber esse companheiro nosso… Ele vai ficar aqui que eu vou sair. Vaccari, fica à vontade. Senta tu mesmo…”
Depois de ser aplaudido, Vaccari subiu ao palco e discursou:
“Bom dia! A todos os companheiros e companheiras. Quero dizer que pra mim tá aqui hoje é uma data muito importante pra mim e pra todos nós. Passamos dez anos de sofrimento contínuo, que foi todo o processo injusto que foi feito contra o PT, contra os dirigentes, contra o presidente Lula, que foi a questão da Lava Jato. Eu quero agradecer o apoio que eu sempre tive do PT, eu digo sempre isso. O PT me apoiou quando eu fui preso e quando eu saí da cadeia. E, pra mim, isso é um orgulho muito grande. Forte abraço a todos vocês!”
O histórico de Vaccari
Condenado em sete processos da Lava Jato, um deles com sentença de 15 anos de prisão, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto cumpriu quatro, foi beneficiado por indulto natalino e voltou publicamente à cena política em 22 de novembro de 2023, abrindo um seminário da Central Única dos Trabalhadores (CUT) sobre fundos de pensão.
Em 2017, Vaccari se tornou réu na Justiça Federal por fraudes que provocaram prejuízos de R$ 402 milhões no fundo de pensão da Caixa Econômica Federal, a Funcef, representada no evento da CUT pelo seu presidente, Ricardo Pontes.
O Antagonista lembra que Vaccari foi apontado por Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, como o principal operador do PT no esquema do petrolão e que era chamado por ele de “Mochila”, razão pela qual foi identificado como “Moch” nas planilhas de rateio da propina arrecadada. Segundo Barusco, Vaccari participou pessoalmente das negociações para a cobrança de suborno de estaleiros contratados pela companhia.
Vaccari também foi apontado como operador de propina do PT por Renato Duque, no depoimento histórico do ex-diretor de Serviços da Petrobras sobre a origem do petrolão. O Antagonista relembra um trecho sobre a entrada de Vaccari no esquema, que já estava em andamento:
“Fui a Brasília [em 2007], tive uma conversa com Paulo Bernardo [então marido de Gleisi Hoffmann], que era ministro [do Planejamento] na ocasião. Ele agradeceu a ajuda na campanha, agradeceu a ajuda pós-campanha, disse da importância do que tinha sido feito, disse que queria continuar contando com a minha participação na diretoria da Petrobras, ele falando em nome do partido [PT], e que, a partir daquele momento, o presidente – e o presidente era o Lula – tinha indicado uma pessoa da confiança dele para tomar conta dos negócios da Petrobras relativos ao Partido dos Trabalhadores [PT]. E essa pessoa era o Vaccari.
Nessa ocasião, o Vaccari não era ainda o tesoureiro do partido, em 2007. E eu tinha muito pouco contato com [o então tesoureiro] Paulo Ferreira. Ele tinha o voo próprio dele, fazia o contato com as empresas, mas não me envolvia. E anteriormente com o Delúbio [Soares] eu tinha mais contato, mas não tanto quanto eu passei a ter quando o Vaccari assumiu essa posição. Tive um almoço de apresentação com o Vaccari no Rio, aí começamos a estreitar o relacionamento, que acabou virando uma amizade.
Nessa ocasião, o percentual que servia de referência para a ‘casa’, ele variava. Por exemplo, no caso das sondas P-51 e P-52, foi meio por cento (0,5%), que gerou cerca de 6 milhões de dólares, que foi dividido: 40% pra mim, 30% pro Barusco, 30% pro Raul. Tinha contratos que podiam ser 1%. Não me lembro de nenhum contrato que tinha chegado a 2%, mas 2% seria o máximo.
Ainda em 2007, o Ildelfonso Colares, que era presidente da Queiroz Galvão, me procura e diz que o deputado Janene tinha procurado e tava querendo as obras relativas ao Abastecimento com uma propina de 5% e que isso iria inviabilizar porque não teria como pagar esse nível de propina e ainda ficar dentro do orçamento da Petrobras.
Eu falei: ‘Olha, vamos fazer o seguinte: vamos definir aqui agora, você se encarrega de passar pros demais; 2%, [sendo] 1% pra Diretoria de Serviços e 1% pra Diretoria de Abastecimento; 1% pra Diretoria de Serviços é 0,5% que você acerta com o Barusco e 0,5% é Vaccari [PT]; e 1% do Abastecimento o Paulo Roberto [Costa, então diretor da área] define como vai ser feito.’
Isso aí institucionalizou. Acho que acabou todo mundo sendo atendido e ninguém reclamou. O Janene, até onde sei – e chegou a estar comigo lá na Petrobras –, nunca reclamou, nunca falou nada sobre isso. E assim ficou.
Então a partir desse momento a coisa começou a fluir: o partido [PT] sempre negociando meio por cento, o Barusco negociando meio por centro, e o Paulo Roberto e a turma dele lá negociando 1% também. Foi essa a maneira que se achou e o Barusco continuou gerenciando e controlando e recebendo e transferindo o dinheiro pra mim. Eu tinha pleno conhecimento do que estava acontecendo, não estou me eximindo de responsabilidade, novamente insisto.
Ainda em 2008, eu me recordo (…), o senhor Augusto Mendonça [da Setal] me procura (…) e o máximo que eu acho que ele conseguiu falar comigo foi o seguinte: ‘Escuta, eu queria confirmar se as doações pro partido eu devo fazer através do Vaccari.’ Eu achei uma pergunta lógica, porque o Vaccari não era [ainda] o tesoureiro [do PT]. O Barusco tinha passado essa informação pra ele. Eu falei: ‘É isso mesmo. O que for pra ser doado ao partido, na contribuição do partido, você acerta com o Vaccari.’ Entenda-se ‘doação’, ‘participação’, seja o que for, como vantagem indevida. Então já em 2008, 2009, ele procurou o Vaccari pra acertar o pagamento dessas vantagens indevidas com o partido.”
Duque contou, também, que conversava com Vaccari em média duas vezes por mês, pelo menos, que Vaccari tinha todos os valores na cabeça e que era importante para ele que as empresas envolvidas sentissem que ele tinha acesso a Duque.
Enquanto era investigado na Lava Jato, Vaccari tinha boquinha em Itaipu garantida por Dilma Rousseff – o que foi explorado por Aécio Neves (PSDB-MG) na campanha presidencial de 2014 – e, após sair da prisão, ganhou outra na CUT-PR. Em 2022, atuou nos bastidores da campanha de Lula, assim como o estrategista petista José Dirceu, mensaleiro também condenado pelo petrolão, mas aliviado pelo STF.
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Comentários (4)
FRANCISCO
03.08.2025 07:55Corrupção é o forte do partido, homenagear corruPTo faz é o que eles fazem bem.
Fabio B
02.08.2025 21:30Um partido declaradamente corrupto que comemora a impunidade.
Marian
02.08.2025 20:56Foi num evento partidário. Não vale heim? rs . Mas porque não testar a justiça, a absolvição popular, saindo às ruas amanhã?
Joaquim Arino Durán
02.08.2025 19:01Vaccari era vizinho do Lula no triplex do edifício Solaris no Guarujá.