Josias Teófilo na Crusoé: A arquitetura barroca e os sermões de Padre Antonio Vieira
Mesmo nas igrejas feitas inteiramente no barroco, a estrutura clássica está presente
Erwin Panofsky no ensaio memorável Arquitetura gótica e escolástica realizou um estudo comparativo entre o estilo arquitetônico e a escola de pensamento filosófico-teológico.
A semelhança não é só pelo período, a que Chesterton chamou de Nascimento, em analogia ao Renascimento, que coincide no espaço e no tempo (o entorno de Paris no Século 12), é uma relação estrutural – uma visual, outra conceitual, entre uma suma teológica e uma catedral gótica.
Em comum entre as duas, está a busca pela clareza, ordem, e racionalização do mundo.
Uma catedral gótica caracteriza-se por uma linguagem clara, em que cada elemento é articulado com o todo, como as partes de um argumento filosófico.
E assim como o discurso escolástico divide conceitos para torná-los compreensíveis, o arquiteto gótico divide o espaço de forma inteligível e ordenada.
Seria possível fazer comparação semelhante entre um sermão de Padre Antônio Vieira e a arquitetura barroca luso-brasileira?
Ora, os sermões, como a arquitetura religiosa barroca, servem à evangelização. Por mais belos que sejam, não servem a uma função estética, mas para a conversão dos fiés.
Escreve Alcir Pécora sobre o Padre Antonio Vieira: “Retórica e estética (e já o termo estética é aí anacrônico), para ele, não valeriam mais que como efeito e multiplicação desse efeito cujo sentido e causa não é o código linguístico ou o gosto literário, mas a manifestação da vontade divina entre os homens”.
Alcir Pécora cita a má vontade com que o Padre Antonio Vieira recebia os convites da rainha Cristina da Suécia para que permanecesse como pregador em sua corte italiana, pois ele notava que seu discurso inspirado seria recebido apenas para gozo literário.
O grande pregador utilizava-se constantemente de metáforas arquitetônicas: ele compara a alma a um templo, a virtude a um edifício, a igreja a uma construção espiritual.
Compara também o processo de formação moral e espiritual ao trabalho de construir uma casa: “A virtude se levanta como edifício: por fundamentos se começa, por graus se sobe”.
Compara a sociedade como edifício desigual: “Uns levantam-se como torres, outros rastejam como ruínas”.
Ele próprio pregou em igrejas barrocas brasileiras e portuguesas. Tais igrejas eram o ambiente natural das suas pregações.
A relação entre sua obra…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)