Jerônimo Teixeira na Crusoé: Esperando Trump: diário dos dias pré-tarifaço
O agourento mês de agosto de 2025 talvez se converta em marco na história da economia global, e isso não é nada bom
Terça-feira, 29 de julho, 22h30: agosto no horizonte
Sou uma voz do passado e me angustio: ainda terei algo a dizer aos leitores?
O drama é o seguinte: começo este texto na data informada acima e espero concluí-lo na quarta, dia 30. Os assinantes de Crusoé, no entanto, só verão estas mal digitadas linhas na sexta-feira, primeiro dia do agourento agosto.
Entrego meus textos ao editor na quarta-feira desde que esta coluna fez sua estreia, em 2022. Nunca, porém, houve uma semana como esta, dividida por um abismo entre os dois últimos dias úteis.
Pois a sexta-feira amaldiçoada que me aguarda, a sexta-feira em que você, leitor, abrirá este texto no celular, tablet ou computador – essa sexta-feira tirana não é um dia qualquer.
Primeiro de agosto de 2025 é quando deve entrar em vigor a tarifa de 50% que o presidente dos Estados Unidos promete impor a tudo que seu país importa da soberana nação brasileira.
Nada será como antes. Sou uma voz soterrada de uma era superada. O leitor da sexta-feira rirá desta múmia que escreve.
Quarta-feira, 30, 11h: manga com leite derramado
O céu está azul, inocentemente azul. Interrompo o trabalho e observo a rua pela janela do quarto.
Carros, motos, ônibus, gente apressada, ciclistas do iFood, moradores de rua arrastando seus cobertores pela calçada suja. “Não haverá mais dias brilhantes como este”, penso.
Prevejo uma sexta-feira sombria, carregada de presságios e portentos, como o dia em que Júlio César foi morto a facadas no Senado.
O ar da sexta-feira terá um ominoso odor cítrico: o cheiro de toneladas e toneladas de laranjas que apodrecerão nas árvores, pois a tarifa de 50% torna seu preço inviável no mercado americano.
Consta que há esperança para outros frutos desta terra em que se plantando tudo dá.
Howard Lutnick, secretário do Comércio dos Estados Unidos, disse que cacau e café talvez sejam isentos das tarifas da sexta-feira. Mas ele não falou especificamente do Brasil.
Manga: alguém…
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