Dennys Xavier na Crusoé: Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei
Quem mais fala de legalidade é quem mais a instrumentaliza; quem mais clama por ordem é quem mais subjuga o Direito a finalidades extrajurídicas
Poucas expressões revelam de forma tão crua a perversão do poder quanto a máxima “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.
Essa fórmula, que denuncia o cinismo mais torpe, maturado nas sombras dos palácios, não é apenas uma descrição irônica do funcionamento político-judicial.
É, mais profundamente, a enunciação de um regime de exceção permanente, disfarçado de justiça.
Qualquer semelhança com o que experimentamos no Brasil de hoje não é mera coincidência.
No plano da aparência, tudo segue conforme o rito: leis são lidas, autos são redigidos, juízes redigem votos longos e técnicos.
O teatro, um tanto patético, está em pleno funcionamento.
No entanto, por trás da fachada do aparato legalista, opera-se um processo de seleção moral, no qual o indivíduo não é julgado apenas por seus atos, mas por sua posição no tabuleiro das alianças e inimizades.
O critério decisivo não é o que se fez, mas quem se é. E o que se é não depende da conduta, mas do pertencimento.
Num país que avalia a qualidade do trabalho de um parlamentar pela quantidade de “projetos de lei aprovados”, não é difícil imaginar: milhões de dispositivos “legais” ficam disponíveis para aplicação arbitrária sempre que necessário.
É só correr os olhos nos códigos, escolher qualquer lei que dê ares de fundamento para a perseguição e, voilà, a mágica está feita.
A justiça, assim, deixa de ser universal para se tornar facciosa.
Aquilo que deveria ser imparcial e abstrato, converte-se em arma concreta e dirigida.
O adversário político ou ideológico (tornado inimigo moral) deixa de ser alguém com quem se dialoga ou debate, e passa a ser um corpo a ser neutralizado, ainda que por vias supostamente legais.
Direito, então, não serve mais para limitar o poder, mas para exercê-lo com verniz de legitimidade.
Quando isso ocorre, o núcleo do Estado de Direito é corroído por dentro.
A lei, que deveria garantir previsibilidade e igualdade, torna-se um instrumento de discriminação e intimidação.
Os amigos, protegidos…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (2)
Carlos Augusto Lins Brito Da Silva
27.07.2025 09:56Realmente, é o que está acontecendo no Brasil de hoje. O irmão do pseudo presidente nem é falado na roubalheira do INSS. O deputado que fala alguma coisa, ai sim, é perseguido sem piedade. Roubar pode e muito, mas falar contra esse sistema corrupto, vixe Maria, perseguição implacável. Haja “divã” pra esses “juízes”.
Marian
27.07.2025 09:45Se os inimigos tiverem a lei para si, estarão no lucro.