O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

13.07.2026

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O Antagonista

O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 24.07.2025 17:38 comentários
Análise

O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

Corajosos à distância, mártires do sacrifício alheio, Paulo e Eduardo têm se revezado em constrangedoras declarações

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Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 24.07.2025 17:38 comentários 5
O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

Paulo Figueiredo (neto de ditador) e Eduardo Bolsonaro (filho de aspirante a ditador) são herdeiros ideológicos exemplares. Respectivamente orgulhosos dos feitos do avô, que foi chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), e dos feitos do pai, que tentou viabilizar um golpe de Estado, eles representam muitíssimo bem uma certa família tradicional, minto, patrimonial brasileira. Não acredito que sejam quem são por terem o sangue que têm, mas pela educação política que receberam e aceitaram sem questionar. O problema é de analfabetismo democrático, não de determinismo biológico.

Corajosos à distância, mártires do sacrifício alheio, patriotas de bandeira estrangeira, Paulo e Eduardo, neto e filho, revezam-se em constrangedoras declarações que, se não têm produzido quaisquer efeitos práticos em uma base já cansada, abandonada e em vias de dispersão, ao menos prestam para esclarecer um pouco mais as coisas, e não deixar margem nenhuma para dúvidas sobre os princípios e valores que sempre pregaram com a boca, mas nunca aceitaram de coração.

Paulo, o neto, admitiu que às vezes é preciso tocar fogo na floresta inteira para pegar o bandido. Eduardo, o filho, sabe que várias famílias sofreriam, mas, pelo menos, ele estaria vingado. Lula? Antes solto do que preso, para que sirva à estratégia eleitoral que lhes interessa, ainda que não sirva ao país. O que defendem, cada um a seu modo, um mais metafórico, outro mais literal, um comedido, outro desmedido, é a ruptura institucional, a quebra da ordem democrática e a instauração de um regime autoritário e familiar. Doa a quem doer, contanto que não doa neles.

Talvez eu tenha lido os livros errados, ou tenha lido errado os livros certos, mas não me lembro de ter encontrado em Edmund Burke (Reflexões sobre a Revolução na França), Russel Kirk (A Mentalidade Conservadora, A Política da Prudência), Raymond Aron (O Ópio dos Intelectuais), Michael Oakeshott (Ser Conservador), Alexis de Tocqueville (A Democracia na América), G.K. Chesterton (Ortodoxia), ou mesmo, à esquerda, em Norberto Bobbio (Liberalismo e Democracia), palavras de ordem que convidassem à desordem, bons conselhos que indicassem os maus caminhos.

Se li os livros errados ou se li errado os livros certos eu não sei, mas o fato é que verdadeiros conservadores coincidem com genuínos liberais no que têm de melhor: são reformistas e reativos; são céticos quanto à racionalidade e à planificação; são cuidadosos quanto às soluções abruptas e intempestivas; são prevenidos quanto à ambição dos intelectuais pelo poder político. Conservadores e liberais, quando verdadeiros e genuínos, estão no lado oposto ao de reacionários (que veem no passado uma utopia) e revolucionários (que desejam no futuro uma utopia). O reacionário é só um “revolucionário do avesso”, disse o filósofo Anthony Quinton.

O cientista político e cronista português João Pereira Coutinho, ele próprio um conservador à inglesa, comenta no livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários que “a maleabilidade conservadora na atenção às circunstâncias será a expressão mais evidente do seu pluralismo político” e, por isso mesmo, “um conservador entende que a realidade é sempre mais complexa, e mais diversa, que a simplificação apaziguadora das cartilhas ideológicas”.

Desconfio que nem Eduardo Bolsonaro, nem Paulo Figueiredo cheguem a tanto. Seu oportunismo político é, mais do que ideológico ou conceitual, um arranjo pragmático, de extração intelectual paupérrima. Eles apenas querem se manter, e manter parentes e aliados, longe da cadeia e perto do erário. Como disse certa vez Millôr Fernandes, ele próprio inimigo de direitistas e esquerdistas, “o mal dos revolucionários brasileiros é o ardor com que lutam para manter a ordem constituída”.

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Gustavo Nogy

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Comentários (5)

NIEMEYER FRANCO

26.07.2025 11:41

Paulo e Eduardo são o xerox dos "malucos".


ale

25.07.2025 07:48

Quero um emprego no O Antagonista, quero poder falar asneiras iguais a estas e ainda receber por isso.


Eliane Monteiro

24.07.2025 20:01

Obrigada pela análise acurada.


Marian

24.07.2025 19:50

Há que se dizer que o regime militar foi encerrado por João Figueiredo, sendo ele  o responsável pela necessária abertura política. Qual ditador abre mão do poder? 


Luis Eduardo Rezende Caracik

24.07.2025 17:49

Gustavo, acho que seria útil abordar a capivara de Paulo Figueiredo. Descobri que quase ninguém sabe de seu colorido histórico, inclusive prisional.


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