O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

30.03.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

avatar
Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 24.07.2025 17:38 comentários
Análise

O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo

Corajosos à distância, mártires do sacrifício alheio, Paulo e Eduardo têm se revezado em constrangedoras declarações

avatar
Gustavo Nogy
4 minutos de leitura 24.07.2025 17:38 comentários 5
O analfabetismo democrático de Paulo e Eduardo
Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro

Paulo Figueiredo (neto de ditador) e Eduardo Bolsonaro (filho de aspirante a ditador) são herdeiros ideológicos exemplares. Respectivamente orgulhosos dos feitos do avô, que foi chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), e dos feitos do pai, que tentou viabilizar um golpe de Estado, eles representam muitíssimo bem uma certa família tradicional, minto, patrimonial brasileira. Não acredito que sejam quem são por terem o sangue que têm, mas pela educação política que receberam e aceitaram sem questionar. O problema é de analfabetismo democrático, não de determinismo biológico.

Corajosos à distância, mártires do sacrifício alheio, patriotas de bandeira estrangeira, Paulo e Eduardo, neto e filho, revezam-se em constrangedoras declarações que, se não têm produzido quaisquer efeitos práticos em uma base já cansada, abandonada e em vias de dispersão, ao menos prestam para esclarecer um pouco mais as coisas, e não deixar margem nenhuma para dúvidas sobre os princípios e valores que sempre pregaram com a boca, mas nunca aceitaram de coração.

Paulo, o neto, admitiu que às vezes é preciso tocar fogo na floresta inteira para pegar o bandido. Eduardo, o filho, sabe que várias famílias sofreriam, mas, pelo menos, ele estaria vingado. Lula? Antes solto do que preso, para que sirva à estratégia eleitoral que lhes interessa, ainda que não sirva ao país. O que defendem, cada um a seu modo, um mais metafórico, outro mais literal, um comedido, outro desmedido, é a ruptura institucional, a quebra da ordem democrática e a instauração de um regime autoritário e familiar. Doa a quem doer, contanto que não doa neles.

Talvez eu tenha lido os livros errados, ou tenha lido errado os livros certos, mas não me lembro de ter encontrado em Edmund Burke (Reflexões sobre a Revolução na França), Russel Kirk (A Mentalidade Conservadora, A Política da Prudência), Raymond Aron (O Ópio dos Intelectuais), Michael Oakeshott (Ser Conservador), Alexis de Tocqueville (A Democracia na América), G.K. Chesterton (Ortodoxia), ou mesmo, à esquerda, em Norberto Bobbio (Liberalismo e Democracia), palavras de ordem que convidassem à desordem, bons conselhos que indicassem os maus caminhos.

Se li os livros errados ou se li errado os livros certos eu não sei, mas o fato é que verdadeiros conservadores coincidem com genuínos liberais no que têm de melhor: são reformistas e reativos; são céticos quanto à racionalidade e à planificação; são cuidadosos quanto às soluções abruptas e intempestivas; são prevenidos quanto à ambição dos intelectuais pelo poder político. Conservadores e liberais, quando verdadeiros e genuínos, estão no lado oposto ao de reacionários (que veem no passado uma utopia) e revolucionários (que desejam no futuro uma utopia). O reacionário é só um “revolucionário do avesso”, disse o filósofo Anthony Quinton.

O cientista político e cronista português João Pereira Coutinho, ele próprio um conservador à inglesa, comenta no livro As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários que “a maleabilidade conservadora na atenção às circunstâncias será a expressão mais evidente do seu pluralismo político” e, por isso mesmo, “um conservador entende que a realidade é sempre mais complexa, e mais diversa, que a simplificação apaziguadora das cartilhas ideológicas”.

Desconfio que nem Eduardo Bolsonaro, nem Paulo Figueiredo cheguem a tanto. Seu oportunismo político é, mais do que ideológico ou conceitual, um arranjo pragmático, de extração intelectual paupérrima. Eles apenas querem se manter, e manter parentes e aliados, longe da cadeia e perto do erário. Como disse certa vez Millôr Fernandes, ele próprio inimigo de direitistas e esquerdistas, “o mal dos revolucionários brasileiros é o ardor com que lutam para manter a ordem constituída”.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Paraná Pesquisas também aponta Flávio à frente de Lula

Visualizar notícia
2

Nikolas rebate Janja: “Toma vergonha na sua cara”

Visualizar notícia
3

Com 81% da fase 1 executada, Transnordestina já transporta cargas

Visualizar notícia
4

Irã alega ter destruído avião militar dos EUA avaliado em US$ 270 milhões

Visualizar notícia
5

Relator da CPMI do INSS acionará PF contra Lindbergh e Soraya

Visualizar notícia
6

EUA já têm mais de 50 mil soldados no Oriente Médio

Visualizar notícia
7

Kicis chama Soraya de “sirigaita” ao defender relator na CPMI do INSS

Visualizar notícia
8

Eduardo diz gravar vídeo para Bolsonaro, impedido de usar celular

Visualizar notícia
9

Caiado será o candidato à Presidência do PSD

Visualizar notícia
10

Crusoé: O Brasil é mais anti-Lula ou anti-Bolsonaro?

Visualizar notícia
1

Moraes cobra explicação sobre vídeo citado por Eduardo Bolsonaro

Visualizar notícia
2

Nikolas rebate Janja: “Toma vergonha na sua cara”

Visualizar notícia
3

Caiado será o candidato à Presidência do PSD

Visualizar notícia
4

“Não temos o dever de provar nada”, diz Soraya sobre DNA envolvendo deputado

Visualizar notícia
5

Kassab explica escolha de Caiado

Visualizar notícia
6

Portinho insiste em impeachment no STF e dispara: “O sistema expurga”

Visualizar notícia
7

PSD "apostou num homem aprovado como gestor", diz Ratinho Jr. sobre Caiado

Visualizar notícia
8

AtlasIntel atesta liderança de Tarcísio em SP

Visualizar notícia
9

Crusoé: Por que Trump quer um novo bunker na Casa Branca?

Visualizar notícia
10

Relatório que indicia Lulinha será entregue à PGR e PF, diz líder da oposição

Visualizar notícia
1

“Eles têm problema na família”, diz Valdemar sobre os Bolsonaro

Visualizar notícia
2

Horóscopo do mês: previsões para os 12 signos em abril de 2026

Visualizar notícia
3

PL pede ao STF que presidente da Alerj se torne governador em exercício do Rio

Visualizar notícia
4

Chocolate amargo pode ser um aliado contra pressão alta e trombose

Visualizar notícia
5

Crusoé: Rubio identifica “sinais positivos” de nova ala no Irã

Visualizar notícia
6

Bolo de liquidificador: 4 receitas rápidas e deliciosas para o dia a dia

Visualizar notícia
7

Relator deve restringir redução da maioridade penal a casos de crimes hediondos

Visualizar notícia
8

Kassab explica escolha de Caiado

Visualizar notícia
9

Michelle nega ter recebido vídeo de Eduardo

Visualizar notícia
10

Vitamina D no outono: saiba por que ela é essencial para a saúde

Visualizar notícia

Tags relacionadas

Eduardo Bolsonaro paulo figueiredo
< Notícia Anterior

5 aprendizados valiosos que a robótica oferece aos jovens

24.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Fóssil de réptil com penas de 247 milhões de anos e achado e encanta pesquisadores

24.07.2025 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Gustavo Nogy

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (5)

NIEMEYER FRANCO

26.07.2025 11:41

Paulo e Eduardo são o xerox dos "malucos".


ale

25.07.2025 07:48

Quero um emprego no O Antagonista, quero poder falar asneiras iguais a estas e ainda receber por isso.


Eliane Monteiro

24.07.2025 20:01

Obrigada pela análise acurada.


Marian

24.07.2025 19:50

Há que se dizer que o regime militar foi encerrado por João Figueiredo, sendo ele  o responsável pela necessária abertura política. Qual ditador abre mão do poder? 


Luis Eduardo Rezende Caracik

24.07.2025 17:49

Gustavo, acho que seria útil abordar a capivara de Paulo Figueiredo. Descobri que quase ninguém sabe de seu colorido histórico, inclusive prisional.


Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.