Porteiros na mira: o Brasil que agride quem protege
Três em cada dez porteiros já foram xingados, humilhados ou ameaçados enquanto apenas tentavam fazer o próprio trabalho, segundo a Abrassp
Enquanto o brasileiro médio exige segurança nas ruas, dentro dos próprios condomínios cresce um inimigo silencioso: o desrespeito brutal aos trabalhadores da portaria.
Não é exagero. O dado é da Associação Brasileira de Síndicos e Síndicos Profissionais (Abrassp): três em cada dez porteiros já foram xingados, humilhados ou ameaçados enquanto apenas tentavam fazer o próprio trabalho.
Se a política nacional degrada o respeito institucional, a selva condominial traduz essa decadência em microagressões diárias — às vezes, nem tão “micro” assim.
Um documento virou motivo de guerra
Exigir documento de identidade para liberar a entrada. Seguir regras básicas. Cumprir protocolos. Para muitos, isso é motivo suficiente para transformar um funcionário em alvo de insultos e ameaças.
A pandemia acirrou ânimos, mas a hostilidade ficou. De lá para cá, o número de conflitos entre moradores e funcionários simplesmente triplicou.
Síndicos relatam que precisam intervir com mais advertências, multas — e até boletins de ocorrência.
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Salas de controle, estresse no limite
Essa escalada de violência verbal (e em alguns casos, física) não sai de graça: afeta diretamente a saúde mental dos trabalhadores da linha de frente.
Porteiros passam horas sob tensão, o que pode reduzir atenção, aumentar erros e — ironicamente — comprometer a própria segurança dos moradores que os maltratam.
Osasco: a barbárie filmada
O episódio mais recente vem de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Uma mulher, incomodada com a exigência de um simples cadastro de entrada, decidiu partir para a gritaria (foto).
O que se seguiu parece cena de ficção distópica: socos no vidro da portaria, gritos como “Vocês vão se arrepender disso!” e xingamentos para quem apenas seguia normas internas.
“Foi muito agressiva e nos deixou assustados”, relatou um porteiro sob anonimato.
O condomínio já acionou o jurídico e registrou ocorrência. A visitante foi associada a um morador que agora poderá responder pela conduta.
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O Código Penal já estava pronto — mas ninguém aplica
Humilhar e ameaçar trabalhadores da portaria pode configurar:
- Injúria (art. 140): ofensa à dignidade;
- Ameaça (art. 147): promessa de mal injusto;
- Desacato (art. 331): ofensa a funcionário público no exercício da função (interpretação válida em alguns casos).
Mas quantos desses agressores realmente enfrentam alguma consequência?
Respeito não é agrado. É lei
O Brasil ainda engatinha para reconhecer que o síndico não é um despachante, o zelador não é um servo e o porteiro não é um porteiro de shopping.
São profissionais que exercem funções essenciais para o bom funcionamento da vida em coletividade.
O mínimo? Tratar com respeito quem garante que sua campainha toque e sua porta permaneça fechada.
Mas enquanto houver quem grite por “liberdade” na rua e esbraveje contra normas mínimas no hall social, continuaremos vivendo o colapso da civilidade — um condomínio por vez.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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